quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A vingança plena


Ah, o melhor jeito de se vingar: esquecendo! O difícil é começar o processo... Mas creio que é só permitir que o fator tempo se multiplique por dezenas de milhares de vezes para isso, efetivamente, acontecer. E o esquecimento, ou melhor, a vingança seja plena! Mas, por outro lado, eu não posso esquecer lembrando-me, a todo instante, que tenho de esquecer. Isso não é esquecimento. Por isso digo que o processo é lerdo e inseguro. Porque o esquecimento é involuntário, assim mesmo como a memória (seletiva), com suas instabilidades e frequencias. Só digo que estou flexível a todo e qualquer tipo de esquecimento, pois, até eu mesmo, estou fadado a seus caprichos.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Um tratado da razão

Muito bem, isto aqui anda um pouco (ou muito) jogado às traças – e espero que seja àquelas traças que, realmente, devoram letras. Gostaria de dar um novo formato a este blog, já que o tema aqui proposto é letras e, por conseguinte, literatura. Apesar de andar bastante emaranhado por tarefas cotidianas, eu nunca abandono meus livros e as leituras, ambos têm sempre uma presença marcante em minha vida, mesmo que eu viva sob todas as pressões e imprevisões do dia-a-dia. Aproveitando o momento, irei aqui postar, aos poucos, na medida em que minhas leituras forem chegando ao fim, uma pequena consideração ou, digamos, “resumo” da obra. Ah, e, também, o que é muito importante, pequenos fragmentos de frases interessantes encontradas ao longo da leitura.

E como ao destino agrada as surpresas e malícias, começarei com um livro que se tornou um verdadeiro “tratado da razão” em minha vida. Um livro de Jean Paul Sartre, “A Idade da Razão”.



O que tenho a dizer sobre esta leitura é muito pouco, pois corro o mortal risco de reduzi-la a um meio número de palavras fortuitamente insignificantes. Falarei apenas do êxtase que me causou. Sem exageros, mas pode ser, realmente, considerada um abalo sísmico que me ocorreu nos pensamentos... e tudo o mais que caiba dentro deste órgão gelatinoso (?) e lamacento que carrego na cabeça. Ao longo da leitura, ia sendo atingido por pedradas (ou o termo que melhor aqui se encaixa não seria “letradas”?). E ao final, o que me fez pensar, e a única coisa que consegui carregar deste livro, verdadeiramente, seu título. Será que estou na “Idade da Razão”? Os fatos e acontecimentos narrados por Sartre muito se assimilam com os que passo no cotidiano em que vivo. As amizades, traições, a liberdade de ser o que se quer, e suas possibilidades. Aprendi, dentre muitas coisas, que a liberdade é uma possibilidade. Não sei se aqui estou a fazer uma explicação “errônea” de Sartre e sua filosofia existencialista, sinceramente, não sei. Só sei que este livro foi muito bem aceito por mim. Salvo uns poucos diálogos confusos (talvez seja por eu ter lido, principalmente, à noite, antes ou na hora do sono). Sei que, em muito tempo, não encerrava uma leitura com tantas perguntas, dúvidas e interpelações, principalmente acerca do “destino” dos personagens. Porque penso que os personagens, seja de qual livro for, são pessoas de carne e osso, cabeça, tronco e membro, assim mesmo como somos. E mesmo o autor alcunhando um ponto final na última parte da última página do livro, a história continua e os personagens seguem suas vidas. E isso se acentuou muito neste livro. Acredito que todo mundo possui sua “idade da razão”, e ela vem de maneira distinta, com variadas máscaras e disfarces, nos pegando de surdina. E, de repente, quando menos esperamos, nos transporta para o labirinto das decisões.



"Essas pobres meninas são muito tolas. Basta olhar para o senhor para perceber que é o tipo do sujeito capaz de fazer uma burrada, de derrubar copos ou quebrar espelhos. E no entanto elas confiam a gente como o senhor, o que têm de mais precioso. Afinal, recebem o que merecem."

"Boris não poderia amar uma mocinha de sua idade. Se ambos são jovens, não sabem como se conduzir, hesitam, tem-se a impressão
de brincar de marido e mulher. Com as pessoas maduras, não. Elas dirigem e seu amor é consciente."

"Amizade não suporta crítica (...) Ela é feita de confiança."

""Os garotos", pensou, são vorazes, todos os sentidos deles parecem bocas."

"Ela colhia as homenagens como se fossem ofensas, era como se fizessem dela uma imagem talhada a machado, grosseira e fascinante, e que ela tivesse receio de topar. Somente ela mesma podia pensar certo a respeito de si própria. E pensava sem palavras, era uma certa terna, uma carícia."

"- Eu a acho simpática.
- Naturalmente. É a sua moral. Você quer sempre ser perfeito. Basta que alguém o deteste para que você se esforce por lhe descobrir qualidades."

"Quando a gente se levanta de manhã com enjôo e sabe que tem pela frente quinze horas por matar antes de tornar a dietar-se, que adianta ser livre? "Não ajuda a viver, a liberdade.""

"Nada faziam de mal, era quase uma brincadeira, mas a cumplicidade criava entre ambos um laço leve e encantador. E depois Marcelle não achava desagradável ter um pouco de vida pessoal, algo que lhe pertencesse de fato e que não fosse obrigada a repartir."

"Quando a gente não é casada, uma gravidez é tão sórdida quanto uma blenorragia. Estou com uma doença venérea, eis o que devo dizer-me."

"(...) não ter princípios é ainda um princípio..."

"Um aborto não é um infanticídio, é um assassínio metafísico."

"É preciso ter a coragem de fazer como todo mundo para não ser como ninguém."

"Ah! A família é como a varíola, a gente tem quando criança e fica marcada pelo resto da vida."

"(...) penso como você que não se é homem enquanto não se encontra alguma coisa pela qual se está disposto a morrer."

"A paz. A paz da boa gente, da gente honesta, da gente de bem, dos homens de boa vontade. Por que será a vontade deles a boa, e não a minha?"

"Quanto à liberdade, não era recomendável analisá-la demasiado, porque a gente deixava então de ser livre."

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Parecer

Pisco, 02 de Agosto de 1968.

Lembrarás disto. Certa noite, quando estávamos em uma de nossas observâncias, perguntaste-me por que causa ou razão eu mantinha tamanha tristeza. Pois bem, com esta carta, creio, conseguirei responder esta interpelação que há tanto me corrói.

Há muito tempo, não me deixam (e me repreendem por isso) ser triste. Parece-me que é um ato de heresia ser triste num mundo onde reina uma felicidade mais-que-imperfeita. Todos se dizem felizes, todos dizem que a felicidade é saudável, e faz até bem para o coração. Para o grande público isso parece muito óbvio, mas para mim não. Para mim há um grande e extenso “porém” a ser tracejado em meio a esta felicidade premeditada e falseada proclamada pelo ditirambo da alegria. Neste mundo onde, a cada minuto, descemos um degrau na escala do desespero, estamos todos, realmente, muito felizes por estarmos na plena e completa desgraça. O que quero, afinal, é meu velho e esmerado direito de ser triste, de viver minha tristeza; assim como a lua cheia vive a noite, como o contraste do brilho do sol permeia todo o céu azul celeste. Oh, magníficos senhores do engenho das formalidades, devolvam-me o direito de ser triste, de saborear minha tristeza, por favor! É certo que, nos dias de hoje, mais vale uma desgraça que uma alegria alheia. Estamos todos como cães farejadores prontos a esticar o focinho por cima das tristezas dos outros. Ninguém se dá conta que, bem ou mal, possa haver pessoas que gostem de manter suas tristezas inalteradas. Sintam suas tristezas! Ninguém mais sabe lidar com as eventualidades do mundo por causa, justamente, dessa falsa felicidade que nos insiste bater à porta. Eu sou triste, e não faço nada demais por ser assim. Isto sim é virtude. Ser triste é ser virtuoso. Porque a tristeza é uma das mais autênticas (ou se não é a mais autentica) condições do ser humano. É o que aguça, no mais alto grau, nosso paladar. Não quero maquilar minha tristeza, quero vive-la, como já disse. Quando estou triste esqueço-me dos movimentos, até mesmo esqueço que respiro. Não encare como um tipo de escapismo, pois não quero fugir da realidade, muito pelo contrário, estou sedento por experimentar o doce e amargo sabor dessa tristeza. E já esclareço por aqui de uma só fez que não desejo conselhos “interessados” sobre a “arte do viver”.

Possivelmente, não concordarás com, absolutamente, nada que vos escrevo, mas esse é meu direito, e, acima de qualquer outra coisa mundana, meu DEVER. E quando eu aprender a viver intensamente minha tristeza, saberei ser, autenticamente, feliz. É essa a felicidade que tanto digo, e só a tristeza é capaz de proporcionar.

Por mais, se faz necessário uma pequena distinção. Não confunda tristeza com sofrimento. Essa tristeza que proclamo não está, em nenhum aspecto de sua existência, ligada ao sofrimento e, por conseguinte, também, a depressão. O sofrimento e a depressão são causados por nossas relações terrenas, pelo apego que cultuamos a todo instante, seja por pessoas ou bens materiais. A tristeza, que vos falo, é causada, pura e simplesmente por vontade de se estar consigo mesmo. É uma espécie de desapego às coisas exteriores e um apego a nós. Dizem que só existimos em função dos outros. Ledo engano. Eu existo em função de mim mesmo. Por acaso, deixe de comer ou beber para ver esse desastre. Deixe de dormir, deixe de ir ao sanitário toda vez que seus esfíncteres não mais segurarem os dejetos que estão a sanear teu corpo. Morrerás, nada mais que isso, morrerás! Ou, que seja o caso, ficarás enfermo e entrevado em algum catre esquecido do resto do mundo. Ou proste-te em frente ao Grande Templo a pedir esmolas, e veja, ao fim do dia, o quanto ofereceram-te. Estes são os outros pelos quais tu vives? Estes homens só desejam tuas vísceras. Nada mais. E basta cairmos em tuas lábias para nos entregarmos a seus encantos e nos apegarmos infinitamente.

E findo aqui este breve diálogo com uma simples citação de nosso “Grande Mestre”:

“A vossa alegria é a vossa tristeza mascarada. E o mesmo poço que sai o vosso sorriso esteve muitas vezes em lágrimas.”

E como poderá ser de outra maneira?



Com estima,

T. S.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Um incidente cotidiano

Aos sonhos agradam as alucinações, ao fantástico, à forma...


Segundo o poeta norte-americano T. S. Eliot, poetas e escritores, geralmente, durante processo de criação, recebem a visita de uma musa (a inspiração). E esta musa pode vir silenciosamente, quando menos esperamos. Noite passada sonhei, ou melhor, acredito ter recebido a visita da musa. E, seguramente, por via de pequenos estilhaços, poderei, neste momento, redigir esta nota. Tentarei, subsidiado por minha turva memória e por minha deplorável condição humana, reconstituir o fato.

Sonhei que estava em meu próprio velório. Já era de se esperar que houvesse pouca gente, pois em vida, certamente, não cultivei extensa quantidade de amigos e conhecidos. Se não trai a memória, dos que se encontravam presentes, uns poucos eram parentes, dois grandes e únicos amigos que possui na vida e, de resto, não consegui identificar a fisionomia. Provavelmente era o coveiro ou outro funcionário do cemitério aguardando o findar de todo aquele ritual para organizar o necrotério e encerrar o expediente. Lembro-me ter adentrado mansamente à capela onde meu corpo estava por ser velado. Entrei sentindo como se estivesse indo ao encontro de um ser místico que iria vaticinar algo sobre meu destino. Não sei como tomei conhecimento deste fato, talvez fosse por via daquela infausta voz do locutor de notas de falecimento, com aquele carro vermelho a percorrer as ruelas da cidade a anunciar, com uma voz embargada, o falecimento de alguém que, certamente, era conhecido. Voltei-me à capela. Por vezes, vi meu corpo ser possuído por uma onda de voluptuosidade, e nesse ponto, já não sabia se sonhava ou se vivia aquilo realmente, mas senti que os detalhes do acontecimento se tornavam tão reais ao ponto de nem me dar cota se encontrava-me num velório de fato ou num sonho. Quando cheguei frente ao caixão, percebi que eu dormia, ou melhor, acho que dormia porque não sei se os mortos dormem, talvez eu estivesse mais acordado que eu mesmo. O rosto mantinha uma expressão serena e acolhedora, uns poucos vultos arroxeados adornavam-me os olhos. As flores, ajustadas por sobre o peitoral, eram um tanto mal-cheirosas, mas possuíam um tom muito vivo e audaz, pareciam festejar algum dia santo. Lembro-me ainda que, durante todo o velório, estive tomado por uma pequena aflição, estive a procura de algum fato ou conversa que confirmasse a causa de minha morte, mas parecia que os presentes não me viam, ou não notavam minha presença. Arrastei alguns passos dentro da capela, refletindo sobre o que se passou em minha vida e como cheguei àquela situação. E notei outro fato curioso, com estratégica presença em (quase) todos os velórios, as lágrimas. Quase não havia lágrimas, e me senti completo por isso. Um velório sem lágrimas. Recordo (não tenho o direito de pronunciar este verbo, apenas um único homem em toda a história teve esse direito, e tal homem está morto) ter observado muitos detalhes, mas jamais conseguirei materializar nenhum deles neste conto, por isso, por si só, o conto está falhado. Falhado porque não tenho certeza se sonhei ou se estou inventado este fato, se o vivi ou se alguém o contou, ou contará, em algum ínfimo instante de toda a eternidade.


Ao mesmo tempo, me afligia ainda mais por não saber o motivo da minha morte. Céus, disse olhando ao redor da capela – ao lado de fora - as tumbas e mausoléus abandonados com a pintura a se deteriorar, será que nem mesmo poderei saber do que morri? Não tenho esse direito? Por vez, pensei, não me vi nascer, nem sei ao certo a data em que foi expurgado e lançado a este mundo – só o sei porque o tabelião, ao assinar uma fresta de papel, alcunhou uma abstrata data qualquer, e como minha mãe sofria de certa intermitência na memória, jamais saberei ao certo minha data de nascimento - agora me pregam tamanha peça, não posso ver e nem, muito menos, saber a causa de minha morte. Mas, talvez, a última coisa que saberemos nesse mundo é o motivo de nossa morte, ou não. Talvez, aquele ainda não fosse o momento. Sabendo que não encontraria resposta, voltei ao velório, estava impaciente para ver a cova, minha breve e negra morada, até a voraz corrupção de toda minha face material. Novamente percebi as pessoas, como já disse, eram poucas, às vezes entrava um e outro, algum curioso que transitava na rua ou algum outro sem compromisso, mas, definitivamente, os presentes fixos eram poucos. Enfim, deu-se o fim, é fácil e perceptível reconhecer o clima instintivo que exala dos olhos humanos. Observei um profundo desatar de suspiros, olhares caridosos e, por fim, o coveiro lançar mão àquilo que dava tampa ao caixão. Quando fecharam o caixão, senti que algo em mim não estava em seu perfeito estado, como os intestinos, os pulmões, as vísceras, e todos os demais sistemas. Já a partir daí não consigo lembrar mais nada, justamente o momento em que eu tanto almejava presenciar, o sepultamento. Já não me recordo, nem sei se o houve. Na verdade, nem mesmo sabia se eu estava morto, ou sonhando, só o sabia porque me vi num caixão e na tradicional posição decúbito dorsal. E o sonho acabou juntamente com o fechamento do caixão.

Ao amanhecer, despertei com um pouco de enxaqueca e sem saber onde havia colocado meus óculos.

domingo, 31 de julho de 2011

Notáveis foguetes



“Um homem do povoado de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir alto no céu e na volta contou: disse que tinha contemplado, lá de cima, a vida humana. E disse que somos um mar de foguinhos. O mundo é isso, revelou: um monte de gente, um mar de foguinhos. Não existem dois fogos iguais. Cada pessoa brilha com luz própria, entre todas as outras. Existem fogos grandes e fogos pequenos, e fogos de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem fica sabendo do vento, e existe gente de fogo louco, que enche o ar de faíscas. Alguns fogos, fogos bobos, não iluminam nem queimam. Mas outros, outros ardem a vida com tanta vontade que não se pode olhá-los sem pestanejar, e quem se aproxima se incendeia.”

[Eduardo Galeano / Entrevista ao programa "Sangue Latino"]

domingo, 10 de julho de 2011

Ser (1)

"Quero ser peão da minha própria vida: laçar os problemas, galopar com as alegrias, tocar um berrante bem estridente e espantar a melancolia... enfim, quero uma casa num lugar de aspecto bucólico e aconchegante e viver em meio ao mel que brota do seio da vida!” (T. S.)

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Atenção! Uma Pessoa irá falar.


"Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso." (Fernando Pessoa)

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Eu sou aquilo que ainda está por vir

Perguntaram-me: até onde vai o seu amor por mim?

Prontamente, respondi: sinceramente, não sei. Amor não é município, não tem limite; e não sabe onde começa e nem termina. Meu amor é igual a mim. Eu sou aquilo que não tem nome e aquilo que nunca permanece o mesmo. Meu amor tanto pode começar aqui e terminar na próxima esquina, quanto findar num múltiplo e espectral giro ao redor do firmamento.

domingo, 19 de junho de 2011

Esperança, inspiração

De Manhã, acreditamos que, formalmente, é mais um dia que se amanhece.

Neste dia que vos conto, foi mais um desses, mas, para além de minhas esquálidas intenções (porque não possuía (quase) nenhuma até então), aconteceria algo que iria mudar, definitivamente, o rumo do meu dia.

A bússola matinal apontava para algum lugar onde a neblina da manhã de junho não me permitia enxergar. Andei tateando com as pontas do sapato os filetes de pedra que adornam esta mais que infundada rua, onde pombos e urubus, juntos, no mais alto grau do espírito fraterno, disputam restos rejeitados pela ânsia do despejo humano.

Olho diretamente ao chão, coisa que não costumo fazer com freqüência. Na rampa de acesso à minha garagem vejo um inseto, uma coisa seca. Não estava propriamente seca, mas era a sua cor que representava algo seco, sem vida. Agachando mais a fundo, pude notar que era o que, vulgarmente, se conhece por esperança. Uma daquelas já havia passado lá pela minha casa. Muitas vezes. Era bem típica de minhas inquietações. Sempre encenava seus mais deleitosos cânticos por debaixo da minha janela.

Por um momento, parei e pensei. Mas, esperança seca? É, isso mesmo, SECA! A minha, por exemplo, é. E por mais de um instante de luz, senti uma tremenda admiração por aquela criatura. Era a minha esperança posta, bem ali, no chão, há alguns centímetros da minha própria existência. Oh, esperança! Por instantes foste minha!

Longe desta funesta realidade que nos toca, nos forçam a acreditar que, na grande maioria das vezes, a esperança é verde. Verde, madura, cheirando à clorofila. Mas não esqueçamos, jovens viventes deste planeta, que a esperança de muitos é seca!! É farta, da cor de cansaço, intermitente e dissecada. Não me iluda com essas histórias, a esperança que guardei em mim, e que encontrei materializada no chão da minha garagem, através daquele descorado inseto, é SECA. É a minha esperança!

A esperança que, até então, conheci, era bicho de bons presságios, e toda vez que pintava em algum cômodo lá de casa, todos travavam uma tresloucada corrida ao encontro do bicho. Interpelávamos aos nossos anjos da guarda para que nos trouxessem coisas boas, boas coisas, boas novas...

Mas nesta manhã não vi coisas boas, só vi a minha esperança ser esmagada feito algo podre, algo que já estava perecido há milênios, e só faltava chegar uma lancha para friccioná-la feito cera ao chão. Foi o que ocorreu à minha esperança. Mas fui avisado antes, a entomologia já me vinha colocando essas coisas na cabeça. Uma esperança dura, nó máximo, três míseros meses, e isso, se for no verão. E como era junho, sobreviveu apenas umas poucas horas.

Quando regressei à minha casa, no desbotar do dia, ela estava lá. Ainda estava lá, só em corpo, só em carcaça. Mas o seu espírito, talvez, já estava pairando no firmamento, assim como eu também estou. Pois, é esperança...

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Acontece



Bateram à minha porta em 6 de agosto,
aí não havia ninguém
e ninguém entrou, sentou-se numa cadeira
e transcorreu comigo, ninguém.

Nunca me esquecerei daquela ausência
que entrava como Pedro por sua causa
e me satisfazia com o não ser,
com um vazio aberto a tudo.

Ninguém me interrogou sem dizer nada
e contestei sem ver e sem falar.

Que entrevista espaçosa e especial!


(Pablo Neruda - Últimos Poemas)

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Ser perdigueiro



Hoje resolvi tirar a vergonha de campo e me assumir. Nada relacionado a orientação sexual ou coisa do gênero, mas sim me declarar como um homem perdigueiro. Não sei muito bem o motivo pelo qual o consenso comum decidiu apelidar pessoas como eu com esse nome. E nem me dei ao trabalho de ir consultar um dicionário etimológico para saber quais combinações significativas tal palavra contém. Só chego à conclusão de que posso sim me parecer com um cachorro.
Certa vez, me disseram que sou muito de aceitar as coisas numa boa e, na grande maioria das vezes, abaixar a cabeça para o que as pessoas dizem. Pois sim, claro! Sou desse tipo mesmo! Mas, como em tudo há um porém, esta minha característica também está provida dessa inquieta conjunção. Sou de aceitar as coisas sim, mas sempre com a pulga atrás das orelhas; sempre resiste dentro de mim, mesmo que esfarrapada e ultrajada, uma ponta de desconfiança, uma ponta não, uma rica extensão de desconfiança! A minha fé e crença nas pessoas é muito casta para ser posta em evidência desse jeito, por isso tem de vir sempre disfarçada. Se caso ela vier, assim, à tona de uma maneira explosiva e drástica, pode correr o risco de se perder e se tornar supérflua, ser corrompida como a grande maioria dos sentimentos humanos já corrompidos. A minha confiança é incorruptível. Só se corrompe por minhas próprias dúvidas, e, mesmo assim, antes de passar por uma árdua e dura fiscalização, esmiuçando em detalhes os fatos de toda a situação.
Ser perdigueiro é ser cachorro. Cachorro perdigueiro, do qual possui um olfato invejável por qualquer outra raça canina; possui a cabeça inclinada que, mesmo nas horas de choro e desapontamento, se mantêm em posição ereta! A docilidade, o medo de ferir o outro é eterno, pois contamos, além de um sentimentalismo CARO, uma inteligência insubestimável. Pêlos que nos protegem de qualquer dito: “vou ali e já volto”, ou “não estou bem hoje, não serei boa companhia”. Isso nos faz com que a nossa couraça não se resfrie por qualquer desculpinha tosca, queremos nossos (as) companheiros (as) ao nosso lado a qualquer custo, lealdade sempre, lealdade por quem nos escolheu e comprou em meio a uma gralha de cães choramingando por um dono; o olhar perdigueiro não confunde e nem estranha, é reconhecido como o bem querer, doces amêndoas prontas para serem devoradas por uma avalanche de solidão. A sutileza de nossos gestos e atos nos dá um tom de leveza que espanta a qualquer perito. O crime não nos atordoa. Vivemos em conflito com as certezas e as desesperanças, sempre procurando conciliá-las, fazendo que se tornem boas amigas, quem sabe? Somo protetores, super! Possuímos dentes, dentes que são capazes de mastigar até o invisível. E a única coisa que nos faz rolar e fingir de mortos são os aparelhos telefônicos; seja por mensagem de texto, voz, uma simples ou complexa ligação, jamais largamos o osso! A nossa mente é cela. É corrente. É relicário que guarda com extrema cautela a imagem do outro, a imagem de quem jamais será depreciado, a não ser por alguma desventura (vulgo ciúme). E já que o termo ciúme rolou por estas linhas, não poderia deixar de esquecê-lo. É ciúme sim, sentimos ciúmes! Muitos e muitos ciúmeS! Não nos envergonhamos de querer, querer e querer é assim que se resume nossa possessividade. Pior que querer é não querer. E queremos mesmo! Com muito desregramento e sem pudor. Queremos que chegamos a ter uma convulsão de querer. Em muitos casos queremos, mas não temos, veja a diferença. Ter não se resume em querer. Às vezes temos e não queremos, às vezes queremos e não temos. Então, no meu caso, eu só quero!!! E se eu tiver, vou continuar a querer, sempre! Sempre mais cuidado, mais carinho, mais desconfiança...
Enfim, pareço um espectro dionisíaco demasiadamente embriagado grafando estas linhas, mas eu só posso ser perdigueiro, e me faz um santo bem declarar isso, por mais que muitos achem loucura ou compulsividade. Há uma diferença clara entre um e outro. Mas notemos que, em muitas das vezes, a vida só se salva por um impulso. Por exemplo, o feto, quando sai do ventre, chega ao mundo por impulsos, e vai, até o fim de seus dias, impulsionando aquilo que chamamos de “máquina da vida”.

sábado, 16 de abril de 2011

O Pássaro Cativo



Armas, num galho de árvore, o alçapão;

E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.

Dás-lhe então, por esplêndida morada,
A gaiola dourada;
Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo:
Porque é que, tendo tudo, há de ficar
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste, sem cantar?

É que, criança, os pássaros não falam.
Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender;
Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:

"Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que a voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro
Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores,
Sem precisar de ti!
Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola
De haver perdido aquilo que perdi
Prefiro o ninho humilde, construído
De folhas secas, plácido, e escondido
Entre os galhos das árvores amigas

Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?
Quero saudar as pompas do arrebol!
Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade:
Não me roubes a minha liberdade
Quero voar! voar!"

Estas cousas o pássaro diria,
Se pudesse falar.
E a tua alma, criança, tremeria,
Vendo tanta aflição:
E a tua mão tremendo, lhe abriria
A porta da prisão...


Olavo Bilac

Bilac, Olavo. Poesias Infantis, Ed. Francisco Alves, 1929, RJ


segunda-feira, 4 de abril de 2011

A função da arte/1



Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.

Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.

E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: — Me ajuda a olhar!

O livro dos abraços / Eduardo Galeano; tradução de Eric Nepomuceno. - 9. ed. - Porto Alegre: L&PM, 2002. 270p.:il.;21cm

quinta-feira, 24 de março de 2011

O Cativo

Em Junín ou em Tapalquén relatam a história. Um menino desapareceu depois de um ataque indígena; disseram que os índios o haviam roubado. Seus pais o procuraram inutilmente; anos depois, um soldado que vinha do interior falou-lhes de um índio de olhos azuis que bem poderia ser seu filho. Por fim, deram com ele (a crônica perdeu as circunstâncias e não quero inventar o que não sei) e pensaram reconhecê-lo. O homem, trabalhado pelo deserto e pela vida bárbara, já não sabia ouvir as palavras da língua natal, mas deixou-se levar, indiferente e dócil, até a casa. Aí ele parou, talvez porque os outros parassem. Olhou para a porta, como se não a entendesse. De repente, abaixou a cabeça, gritou, atravessou correndo o vestíbulo e os dois longos pátios e se meteu na cozinha. Sem vacilar, enfiou o braço na enegrecida chaminé e apanhou a faquinha com cabo de chifre que escondera aí, quando menino. Seus olhos brilharam de alegria e os pais horaram porque tinham encontrado o filho.
Talvez a esta lembrança tenham seguido outras, mas o índio não podia viver entre paredes e um dia foi em busca de seu deserto. Gostaria de saber o que sentiu naquele instante de vertigem em que o passado e o presente se confundiram; gostaria de saber se o filho perdido renasceu e morreu naquele êxtase ou se conseguiu reconhecer, ao menos como uma criança ou um cão, os pais e a casa.
Jorge Luis Borges
Obras completas de Jorge Luis Borges, volume 2 / Jorge Luis Borges. - São Paulo : Globo, 2000.

sábado, 12 de março de 2011

Nós que aqui estamos por vós esperamos

Foi bem programada a visita, não sabíamos para onde nos levariam. Era estranho, o lugar parecia meio bucólico e distante do centro e do calor da cidade. Na entrada já latejava no semblante do lugar uma imensa placa de metal, que por sinal estava a ser corroída pela feroz sede da ferrugem. O nome era LEAN. Pensei ser homenagem a algum morador ilustre da região ou algo parecido, mas era uma sigla: o que nos faz uma sigla? Por vezes deixa-nos numa estranha sensação de que o mundo necessita a todo instante de compactar-se. E foi o que houve. Aquele mundo, frio e compenetrado, a solidão que se instalava em meio aqueles móveis, a miseresa de afeto e atenção das quais aquele Lar, ardentemente, clamava.



A sigla significava: Lar Evangélico do Ancião. Longe de pretensões religiosas, me sentia convicto de que naquele lar o que menos se respirava era paz (interior). Havia um tremor dentro dos mais andejos corações que ali se faziam presente; corações esses que já amaram, odiaram, detestaram ou, até mesmo, mataram (quem sabe). Era uma avalanche de desejos que se reprimiam e se encontravam comprimidos naqueles quartos fechados e sufocantes.



Logo na entrada, houve alguns colegas que se excluíram da visita. Já notava-se que o odor forte de urina, que escapava das frestas das janelas e portas, queimava-lhes o estomago. Confesso, pois não quero mentir, nem mesmo para mim, que o cheiro também me incomodava um pouco, mas não foi empecilho para adentrar.



Entrei, firme e vacilante nem sabendo ao menos o que estava a minha espera. Quando dei por mim, já estava percorrendo os mais diversos quartos que adornavam o lugar. O quartos, na maior parte das vezes, assombraram-me. Um pouco escuro e alcoolizante , o cheiro da urina ali se fazia mais intenso, e castigava-me o nariz de forma a por dentro de meu fosso nasal brasas de fogo. Não quero com isso (toda esta minha descrição e apavoramento) denunciar maus tratos, muito pelo contrário, o serviço, por parte do asilo, estava sendo cumprido com a mais tranqüila sapiência. Mas, o que latejava em meu peito era o quanto a solidão se aglutinava naqueles olhares; teve um momento, em um dos dormitórios, que fixei bem o olhar contra uma velha e espaçosa senhora, ela tinha as pernas roxas e grossas, as veias pululavam feito carne viva. Quando olhei bem claramente, vi que em seus olhos corriam rios, eram verdes, me confundi; eram feitos de água? Logo, soltou um grave sorriso para mim, e eu, convenientemente, lhe retribui o esticar de lábios. Senti-me como que um homem feito, completo, por ter sorrido para uma senhora. E não parei, sentei-me na beira da cama de um senhor, magro, mulato e com o olhar enfeitado pelo medo. De início, não lhe disse nada, somente lhe observei uns instantes; logo, ele olhou pra mim e disse: “oi, meu nome é José!” Eu me senti desprevenido e não tive resposta imediata, como ousa aquele velho interromper um momento singular de admiração alheia? Como eu estava sendo tolo, nunca fui tão tolo. O corpo que, justamente, parecia a ser contemplado era o do velho, ele possuía o pleno direito de admitir todo e qualquer olhar. Sobrou-me apenas, reciprocamente, dizer meu nome: “prazer, eu sou Thiago!”.



Em outro momento, uma outra senhora, que estava no quarto dos fundos, logo que nos viu entrar, como se fossemos parasitas a lhe roubar os últimos pulsos do coração, nos olhou ressabiada, mas logo notou a presença de humildade em nós, e disse: “oi, sou Ana Maria enfermeira aposentada!” Confiou-nos a sua antiga e já inválida profissão!



Eu queria falar, ardia em minha língua um poder letal de fazer com que tangesse os dentes, mas não fui capaz. A cada passo que cumpria era uma invalidez interior, uma catástrofe espiritual. Lançava apenas relâmpagos de olhares e desejo. Os velhos, cada um em suas convulsões, hesitações, permaneciam ávidos, latia em seus olhos uma luz, uma estranha sensação de felicidade; a espera que um retorno eterno; a aguardar um gesto misterioso que sustentasse em si a promessa de tal regresso.



Deixamos o lugar. Quando saí, senti o ar tão fresco e saboroso que me lancei em seus braços de modo a abarcar em mim a mais pura e doce razão de viver. Tocava meus pulmões, purificava os brônquios; naquele instante caberia em meu peito toda a brisa que beijava a superfície dos arbustos.



Compartilhei por um instante, ainda, com a enfermeira de plantão, uma ponta de prosa. Curioso e sedento por saber das investidas dos velhinhos, lhe embriaguei de perguntas. Perguntei como era o trabalho, coisas típicas e despretensiosas. Ela apenas disse que havia noites em que o serviço era calmo e outras em que era mais agitado, mas nada que desanimasse. Senti nela uma extensa calma; era calma, sua voz saía feito uma canção de ninar de cristal. Assim, uma colega se aproximou e lhe deu um abraço, folheou-lhe as costas com os dedos e lhe sussurrou algo ao pé do ouvido que no momento não acoplei. Benevolente, agradeceu, incessantemente, a visita e os donativos. Restou em mim a promessa de uma nova visita, sem data e marcações. A própria brisa, que purificava os ares, cantava em meus ouvidos uma incompreensão, e nem mesmo compreendia as minhas certezas (se é que havia alguma).



Chegando ao ônibus, que nos conduziu até lá, fiz algo que já não fazia há tempos, e nem lembrava-me da última vez: uma prece. Mal sabia para quem estava a direcionar aquele gracejo, e nem mesmo possuía um ponto cardeal apropriado. Somente pensei: “continuem a fabricar gente como essa enfermeira”.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Placebo

Quando o corpo e, principalmente, a cabeça já não trafegam muito bem pelas vias da vida, se faz necessário a presença de um profissional que esteja apto a colocá-los nos eixos novamente.

A título de exemplo, esta nota traz alguns detalhes e experiências vividos por mim. E seu inquieto objetivo é demonstrar o quanto estamos vulneráveis e subjugados por reagentes químicos.

Ontem, ou melhor, sempre, acompanho uma tia ao psicanalista. Tia Eugênia sofre, literalmente, de TOC, aquela doença que envolve um misto de sentimentos e desejos absurdos, por vezes esquisitos e miseráveis.

Dr. Eustáquio, o terapeuta, é um indivíduo especialmente “ritualístico”; antes, eu até pensava ser ele um descendente de ciganos com todos aqueles adereços e símbolos secretos, desencadeando em todo o meu corpo um ritmo, quase que, subliminar. Significativamente, é simpático; atingiu o topo de toda a serenidade, a idade da qual dizem ser a idade do homem, a cinquentena; é calmo, mas isso não diz, necessariamente, que seja bom. No entanto, está sempre pronto a ajudar quando for preciso. Segundo as lendas que transcorrem pela cidade, seus colegas de ofício, terrivelmente, lhe invejam. Incapazes (ao contrário dele) de realizarem exíguos milagres, pois não contam com uma áurea tão habilidosa e tamanho intelecto.

Agora, me recordo de quando acompanhei a minha tia em sua primeira consulta, e lembro-me o quanto o doutor ficara surpreso com toda a exímia descrição de início de tratamento. Sutilmente, com um tom de indiferença, respondera o clínico, após todo o monólogo travado pela paciente: “pois bem, não farei milagres nem coisas parecidas, apenas lhe ensinarei a conviver com o seu problema; o amará tanto, assim como Borges se orgulhou de sua cegueira e Camões de seu braço perdido”.

O consultório é característico a uma câmara de ar fria, muito agradável e, como não poderia deixar de ser, cheira a substâncias indecifráveis ao faro humano, não sei muito bem o que essas secretárias guardam nos armários ou expelem no ar. Bem firme e imponente na parede está posto como uma simbologia milenar de culto, excessivamente, anômalo, uma figura ilustre e sensitiva aos pensamentos subterrâneos alheios, o pai de toda a desmistificação do inconsciente, Sigmund Freud. A secretária, nada atípica, nos recebe sempre como uma secretária propriamente dita; e como a danada alcançou tanta beleza? Fico apaziguado só em olhá-la (poucas conseguem atingir tanta formosura). E nessa irrisória ilusão, tia Eugenia se transforma em uma arqueada e convalescente missionária ao adentrar o recinto, devota de todos os ensinamentos, profecias e filosofias do clínico.

Realmente, no cúmulo do desespero humano pela busca de uma solução que possa vir como uma chuva torrencial e erradicar toda a seca mortífera da alma, crê-se muito no vaticínio médico, no discurso que, imbuído na parede, mais precisamente aquele filete de papel que confere ao indivíduo o aval de desbravador das incertezas e incoerências humanas. E é, via de regra, uma verdade inalterável. Para ratificar essa proposição, numa outra ocasião, tia Eugenia dizia ao médico que não estava a cumprir rigidamente com os horários da imersão dos comprimidos que lhe são dedicados. Rapidamente, Dr. Eustáquio lhe passou um belo e intransigente sermão: pois não haveria desculpa que rolasse por sobre a face da terra que lhe fizesse acreditar que a paciente deixou de tomar os devidos remédios. E disse mais, disse que remédio é um sacrifício do homem, deve ser administrado com a maior precaução possível, porém “sem fé nada da pé”.

Eu nem acredito muito nessas conjeturas, mas quem sou eu? Nem diploma tenho. E (voltando a fatídica repreensão) para completar o momento do grande parênteses empregado pelo médico, empertigada pelo caduceu, completou o clínico: “remédio é igual a água benta, se não tomar com fé de nada adianta”. Longa certeza, no tempo em que muito se diz sobre “efeito placebo” essa moda está, realmente, em voga. E parece que tia Eugenia levou isso ao pé da letra. Nunca mais deixou de lado um comprimido se quer, se converteu a uma lunática drogada, e, em todas as noites, após o convicto diálogo com os anjos, ingere todos os comprimidos, um por um, cada qual em sua sincronia deglutiva. Bem? Se lhe faz bem não sei, mas a única certeza que tenho é que todo este escravagismo pelos remédios só lhe traz longos e plácidos momentos de quietude, e é até um grande sacrifício olhar para tia Eugenia em seu momento de desterro químico. Ultimamente, tia Eugenia se encontra bem mansa; sem alterações de humor e sem taras por táxis amarelos. Já passei um bom bocado com todo esse desregramento psicológico. No fim, acabo por enxergar a verdadeira "raison d'être" de minha tia, e não são tratamentos, remédios e psicanalistas aproveitadores, mas sim um par de chinelos, uma tampa pra sua panela, uma unha pra cortar ou desencravar, enfim, um marido. Só isso poderá salvar tia Eugenia dessa desesperadora síndrome. Mas a minha tia nunca desiste, nunca se aquieta, vive com grande furor a rabiscar os anúncios novelescos dos jornais. É uma grande piada essa procura por um companheiro. Ela, simplesmente, se sente como que se ainda tivesse na flor de toda e qualquer juventude, escolhe a dedo cada pretendente, mas, no final, tudo acaba por ser uma grande e tenebrosa ilusão.

Já sem ânimo, tia Eugenia acaba por desistir de toda esta tresloucada busca. Mas, posso estar estonteantemente enganado com as minhas deduções, pois graças ao bom menino Jesus, tudo acaba bem, apresar de toda frustração amorosa. E o efeito substancial que lhe provoca os medicamentos, lhe traz conforto, alivia e, a cada enclausurar do sol e o embotar da noite, ela põe por sobre a mesinha de cabeceira o seu copo d’água e sua caixinha inseparável de remédios; e, pobrezinha, vive por acreditar que todas as combinações químicas das quais compõem aquelas drágeas são, realmente, hóstias sagradas depositadas em sua boca pelos querubins da “prophýlaxis”.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Adeus ao Amor



Eu irei dizer adeus ao amor
Nunca ninguém se importou se eu deveria morrer ou viver
De tempos em tempos a chance de amar passou por mim
E tudo que eu sei sobre o amor é como viver sem ele
Eu não posso ver onde procura-lo.

Então, fiz minha mente ver que eu precisava
viver minha vida sozinho.
E esse não é o caminho fácil.
Eu acho que sempre soube isso
Eu tenho que dar adeus ao amor.

Não existem amanhãs para este meu coração
Certamente o tempo ira esquecer essas memórias
E acharei em algum lugar um alguém em eu que possa acreditar
E que eu possa viver por alguma coisa que realmente vale a pena viver.

Todos esses anos as procuras falharam
Finalmente consegui que as procuras parassem
Dias solitários e vázios serão meus únicos amigos
Apartir deste dia eu esqueço que existe AMOR.
E eu irei em frente com minhas maiores forças.

O que é mentira no futuro é um mistério para todos nós
Ninguém pode prever se é bom a fortuna se ela nunca existiu
Talvez venha um tempo em que eu veja que estive errado
Mas por agora, essa é minha canção.

E agora é tempo de dizer adeus ao amor
Eu irei dizer adeus ao amor.


(The Carpenters - Goodbye To Love)
Imagem - Google Imagens

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Conhecendo a "Jequice"

Estudar em uma escola confessional pode ser sinônimo de inúmeros significados. Um deles é a instrução. Instrução essa, muito bem dada por sinal, com direto a iniciação de ritos e vida cristã. Tratando de um outro modo, aqui na escola em que estudo (confessional-católica-espanhola) já se viu de tudo e um pouco mais. Uma das figuras mais “cativantes” e estranhas desse lugar é o nosso diretor, possivelmente um padre que, no auge de sua frustração, foi designado a direcionar uma instituição e, juntamente, uma leva de jovens desvairados (salva raras exceções, e eu não estou nessas). Praticamente tudo é perfeito para esse padre, e quando tudo nos parece perfeito, até mesmo as pessoas que nos giram em volta, é sinal de que estamos submersos a uma cachoeira de “jequice”. E é exatamente o que se pode dizer do diretor; ele consegue ser mais jeca do que o próprio Jeca Tatu. Apresar de tudo é uma boa pessoa, e sempre nos quer bem (colocando-nos em insanas e desastrosas situações).

Hoje mesmo ele chegou ao ápice de toda a sua “jequice”. A nossa escola está sempre por receber ilustres e beneméritos convidados, provenientes dos mais diversos cantos do mundo (isso diz o porquê de nunca varrerem o nosso pátio, pois lá pisaram muitas “celebridades” e, por uma compaixão ou estima a nossa instituição, nos fizeram o favor de pisotear cada canto do lugar). O padre-diretor, todo complacente, conduziu até a nossa classe um grupo de folk-rok da Galícia. Com todo o seu meio metro de barriga, e afagando-a (para o deleite de seus truculentos braços), o padre me expôs a uma das situações mais ordinárias que passei na vida. O grupo de galegos era composto por quatro jovens e atraentes rapazes. Imediatamente, todo o feminismo da sala se aflorou e mais parecia que estavam a receber um espírito de luz em seus ventres. Já não era pra tanto, porque os moços eram tão atípicos aos nossos costumes que mais transparecia que estavam a fazer um mero e simples favor. De repente (e eu já estava estranhando o padre ainda não dar a sua típica demonstração de “jequice”), ele solta: “ E então, quem vai fazer A pergunta?”. Nesse instante eu vi emergir toda a minha vocação nos olhos dos que estavam em volta. Como se fossem peixes fora d’água a beliscarem com as pontas dos lábios algum vulto preso no ar, todos, insidiosamente, gritaram, ou melhor, berraram: “THIAGO, THIAGO, THIAGO!!”. Pavorosa demonstração de afeto. O meu belo e único nome mais parecia um doce mel que saltava dos olhos da virgem posta por cima da lousa. Quando me dei conta vi que todos esperavam por algum suspiro ou gracejo de minha parte, mas não dei o braço a torcer, não fiz a tão esperada pergunta. Mandei todos pro inferno e saí desesperadamente da sala em busca de um psiquiatra (Mentira). Somente abaixei a cabeça e murmurei que não havia de ser feita nenhuma consideração. Nesse momento eu já estava roxo e meu estômago se correndo com o ácido da vergonha. Até que, como uma fuinha sem cérebro, Andréa lança a patética pergunta do fundo da sala (seria melhor ela ter batido a cabeça na parede até que todo o seu sangue saísse pelo nariz): “¿Es la primera vez que visitan a Brasil¿”. Com uma cara de quem está mais perdido do que a Vanusa cantando o hino nacional, o galego do meio balança, simplistamente, a cabeça, num ato de afirmação. Como se já não bastasse todo o festival de frivolidade, o padre ainda me dá uma de íntimo dos rapazes, e começa a “dialogar” com eles em seu dialeto natal, o “jequês”. “Cês tão gostando daqui?”, “Como Cês se sente visitando um país tão bonito como este?”. Durante alguns minutos, ainda presenciei as indecisas caretas do grupo.

Terminado todo o estúpido momento, ao fim da aula, ainda dei uma vasculhada pelos corredores do colégio pra ver se ainda encontrava um rastro dos moços. Mas toda a minha busca foi em vão, pois já deveriam estar de partida a uma hora daquelas, se despedindo do país em algum trecho desse espaçoso céu e a bater as chinelas para não levarem consigo nenhuma partícula de poeira que lhes pusessem em contato com a “jequice”.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A Nós [Talvez]

Antes, eu pensava que tudo era passageiro, tudo poderia ir e vir sem nem um mínimo de compreensão e saudades. A partir do momento em que descobri a minha própria razão, e acreditei que jamais poderia dominar as exigências da minha mente, encontrei-me extorquido por esse sentimento derivado não sei bem de onde.

Quando menino, eu possuía um diário, e, ordinariamente, pelejava por sobre aquela superfície límpida de papel contando e ditando todas as suposições a cerca de mim mesmo. Verdadeiramente, lidava com isso como que se aquele pedaço de papelão encadernado por uma haste de arame fosse um amigo especial.

Por muito tempo pedi ao tempo um tempo. Um tempo para pensar e refletir a cerca de coisas banais cravadas, pelo próprio tempo, em minha pele. Eu negava, insistentemente, todas as ladainhas alheias, os ditos que lançavam-me à face. Fui interpelado inúmeras vezes: “os teus pés não se retorcem com os bafejos do inverno?”. E restava-me apenas olhar o céu e perceber o quão distante o sol brilhava, o quão distante se encontrava o arco-íris da misericórdia afetiva. Até que a fantasia da vida ludibriou-me a mente e conduziu a tua figura até o meu (então imperfeito) mundo. E juntos, descobrimos o segredo e, por várias vezes, tocamos as estrelas, mesmo já padecidas no firmamento. Em vários instantes, realizei incontáveis orações, e, no fim, sempre enxergava a retribuição – enviada pelos anjos, de cada uma. Nem passava por minha cabeça retroagir ao tempo em que sofri aguardando algo que, no romper da manhã, me veio das nuvens. Negava esse tempo, tentei, inutilmente, anulá-lo de minhas impressões. Estive tão apaixonado que não me importava se estivéssemos perto ou longe, sabia confiar em minha alma que lhe guardava como uma moeda no fundo do meu bolso. E acreditamos que havia sim um paraíso nesta dramática terra, e se encontrava justamente em nós, em nossos abraços. Eu conseguia armazenar toda a luz da lua em seus olhos. Esse olhar rebelde, revolucionário; modificou as doutrinas do meu coração.

Hoje, não entendo o que o mundo intencionava transmitir com toda aquela profícua(?) representação, tão passageira como um piscar de olhos. Ingratidão?

E por essas noites a minha cama sempre se transforma em um cais sem nem ao menos dar-me a possibilidade de idealizar uma ponta de esperança. E me pergunto: alguém irá abrir a porta? Inútil, sucumbido ao estranho movimento do meu labirinto hipotético, permaneço cerrado em meu arquétipo ideal de amar. Pensava em estar por toda a eternidade, confortavelmente, acolhido em nossa colméia de sentimentos – divinizada, especialmente, por nós e para nós. Agora me diga, valeu a pena? Sempre me dizia que não seria fácil, mas o que é fácil?

E hoje só encontro auxílio nas canções que me deixaste; poderá ser a única chance e a única via de nutrir o canteiro – de flores já mirradas – de um indolente? Uma canção de amor é aquilo que se vai como o próprio amor, como as ondas do mar; impetuosas e ofegantes; e através de suas caldas amargas prenderam-me, sufocaram-me por tudo o que há de mais sufocante no mundo. É um misto de lamento e compadecimento, é um tornado que gira em torno do meu atual meio de viver. E quem me dera avistar uma barca, me prender a sua proa e, definitivamente, ser conduzido à ilha do desespero.

Nesse instante, há uma fonte em meus olhos, não seca, não se apaga. Brota contínuas pedras luminosas e transparentes por causa de um futuro que não mais uso no presente.

É um velho e risonho engano perder-se à deriva com a maré. Porém, o preço que me exigiram é muito alto, e o caixa forte da minha existência não dispõe de tamanha reserva.

Por isso, fico bem, permaneço só... [Talvez]

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Nota

Definitivamente, sou compassivo a vozes. E, às vezes, nós, tangíveis as vozes, somos submetidos a certas situações que, na realidade, não apresentam um fundo de racionalidade.

Semana passada, uma tia veio a falecer. Recebemos a notícia como se estivéssemos aguardando um desfile mega espetacular de uma certa escola de samba. O telefone, estridentemente, tocou. Como se fosse um infeliz presságio, prima Erenice atendeu. Estávamos todos em casa, mais precisamente no lugar em que cismam dizer que é o melhor lugar, o lugar mais santo e comunal, a cozinha. Como o telefone estava posto na sala, prima Erenice regressou a cozinha como que se lhe tivessem sugado todo o sangue à canudinho, gota por gota. Ficamos todos apreensivos com tamanha palidez, eu, num determinado momento, acreditei que, acidentalmente, Erenice havia ingerido uma garrafa de Leite de Magnésia, mas não o era. Era a morte apenas.

Quase todos se derreteram num afamado pranto, não porque fosse a tia Carmem (a falecida) muito querida, não, mas a forma de como “fechou a casaca” nos pareceu muito trivial, morreu engasgada com uma espinha de traíra.

Após todo o leigo ritual dos pêsames coletivo, eu era o único que não havia se alarmado e nem se encontrava com o nariz similar a uma pimenta malagueta em ponto de colheita. Não porque eu seja uma pessoa turrona ou incompreensível, mas porque sou seco. O meu fluído lacrimal é composto por substâncias que não veem à tona por qualquer banalidade. Pois sim, a morte é uma banalidade. Seguindo todo o clima de combustão veloresca, havia de se fazer aquilo que devia de ser feito, ou seja, enroupar a defunta, ornamentar o velório e avisar os desavisados. Eu, mais precisamente, fui incumbido de realizar a última tarefa, pois era a que mais requisitava uma atitude hermética e cautelosa. Bem, nem ao menos deram-me a oportunidade de por em prática toda a minha experiência de auditor das notas de falecimento da cidade. Acredito, que toda essa minha sensibilidade por vozes teve inicio bem aí. Quando, em todas as manhãs de sábados – isso mesmo, aqui as pessoas adoram morrer, justamente, no sábado, aquela austera e penosa voz, despertava-me. Sempre com o mesmo padecido bordão: - “É com muito pesar que comunicamos o falecimento do Senhor Fulano...”. E o travesseiro servia-me de aterro aos meus ouvidos, e abafava um pouco daquela insidiosa voz.

Assim, escreveram-me um bilhetinho, um recadinho, bobo bobo... Que até mesmo aqueles que mais temem a morte conseguiriam fazê-lo de olhos semi encerrados.

No conteúdo, cravaram assim: “- Querido (nome do parente ao qual iria comunicar o falecimento) venho através, comunicar o falecimento da tia Carmem, o enterro acontecerá na hora tal, no cemitério tal... aguardamos pesarosamente a tua presença.” E eu tive que me submeter a esse vexame. Aguardar, como se estivéssemos aguardando para o coquetel da certeza mais paradoxal do mundo.

Mas o pior ocorreu no momento em que iniciei, para todo o congênere, as devidas ligações; e ao findar de cada comunicado – o fazia como se fosse uma boneca de pilha que ao receber um abraço se retorce e diz: “eu te amo!”, ouvia choramingos e o telefone do interlocutor se espatifar no chão. Isso fez-me pensar o quanto as pessoas são sentimentais à morte, pode ser até mesmo aquele vizinho que, grudado ao seu muro, num dia qualquer, vem a “empacotar”, e todos se apavoram e dizem: “Nossa, ele não merecia!”, ou então, (independente da idade) “Como era novo, não merecia morrer!” Como se fosse destinado a ser preservado no relicário da vida ou virar semente.

No fim, o velório foi um sucesso, pois até mesmo os vizinhos se compadeceram e tomaram a frente do acontecimento. Ajudaram a ornamentar, fizeram quitutes, café, chá... Parecia até mesmo uma festa de confraternização no Palácio de Buckingham, sendo que a rainha dessa “festa” também possuía uma coroa, granulada por fitas vermelhas e maços de galhos secos – isso só para não dizer que pelo menos uma vez na vida, ou melhor, na morte, tia Carmem não parecesse com a Rainha Elizabeth II.

Passado todo o cerimonial litúrgico e os ritos profanos, chegou-se a hora do desmantelado momento da alcovação. Particularmente, detesto cemitérios, eles não deveriam existir, se existem é por conta da inóspita mania humana em guardar coisas velhas e ultrapassadas. Mas, por um lado, confesso, tenho certa queda por esses sítios, apesar de todo o meu lado convulsivo os detestar. Pois são nesses lugares é que melhor consigo acalmar toda esta minha depravada sensibilidade por vozes. É um lugar neutro, são. Não se escuta nada, ou melhor, será que não escutamos realmente? Ou os sepultados querem nos dizer algo e, por contarmos com uma audição tão definhada, não teríamos capacidade ouví-los? Sei lá.

Enfim, o enterro foi feito e, assim, todos seguiram para casa com a cabeça desnivelada. Já parecia que o sol estava por sair – pois na hora do sepultamento, o céu se escondia por sobre intrujadas nuvens.

Por mais, sigo até hoje sensível a vozes, tendo, às vezes, que renunciar a certos acontecimentos em minha vida. Sei que isto pode parecer uma infeliz comparação, ou seja, essa ambivalência entre morte e voz. Pode ser que, no outro mundo, quando eu estiver sendo conduzido por Hermes Trismegisto ao trono de Hades, não possa, definitivamente, livrar-me das “vozes”?

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Selo ''Projeto Creativité''


Bom, há dias atrás eu recebi esse selo de qualidade "Projeto Creativité" de Helena Reis (Helenina, pros mais íntimos), proprietária e manda chuva do blog "Gota de Limão" (ainda não conhece? hum.. num sabe o que tá perdendo.).

Como já é de costume, eu sou uma pessoa que adora quebrar correntes. Pois bem, não irei cumprir com as devidas regras, porque aqui quem determina as regras sou eu... mas, por detrás disso tudo, tenho um propósito. Na verdade, eu nem sei mais quem me lê, ou seja, quem vem e passa por aqui. Eu acho que nunca falei nada sobre mim, os meus textos falam por si só. Mas, pensei bem e aqui estou, pronto a expor esta horrenda cara que se esconde por detrás desta máscara infausta.

Então, só para manter a tradição irei dizer 10 coisinhas sobre a minha pessoa, nada demais, pra variar.

Nome: Thiago Campos Leite (Desabafo: gostaria que... quem inventou em colocar um "h" em "tiago" fosse queimar no mármore do inferno, pois é uma tremenda incomodidade ter que ouvir aquela perguntinha tão inpertinente toda vez que se tem de preencher algum formulário ou cadastro: "É T(h)iago com "h" ou sem "h"?).
Uma música: Não tenho uma, uma é infinitamente limitada para definir-me, então fico com a teoria de que: "todo prazer me diverte".

10 coisas sobre Io:

1- No momento tô querendo (é só no querer mesmo) me mudar para Portugal de mala e cuia.
2- Sou muito preciso. Penso muitas vezes antes que fazer algo, mas quando sou arrebatado é isso e ponto.
3- Tenho mania de organização, e só consigo trabalhar com o chão limpo.
4- Soy mui enamorado por toda la literatura Latino-americana.
5- Me decidi precipitadamente por um curso universitário, porém o castigo vem no rabo do coelho, e me arrependi muito. Mas agora estou enlouquecidamente satisfeito no qual me encontro matriculado atualmente.
6- Adoro ler à noite e, consequentemente, de madrugada, pois é o momento do qual disponho do mais sepulcral silêncio, sem gritaria e brigas da vizinhança.
7- Não faço amigos facilmente, tenho que rodar, rodar e rodar até encontrar o fio da meada.
8- Uma das tarefas mais difíceis de minha vida, creio, seria dizer qual é o meu livro preferido. Não sei a resposta. Todos os livros que eu li, durante essa "jovem" vida, acrescentaram, de certa forma, muitos pontos favoráveis que me fizeram ser o que hoje sou.
9- Atualmente estou em êxtase com toda a obra do escritor argentino Jorge Luis Borges (eu sou assim, tenho alguns períodos literários).
10- Não tenho preconceito com Best Sellers, inclusive, já fui um Sidney Sheldon maníaco (e o acho um dos escritores mais originais e intrigantes do mundo, me proporcionou momentos agradabilíssimos de leitura). Na verdade, todos os Best Sellers por mais que tenham de enfretar a sua parcela de preconceito, possuem os seus devidos valores. E digo mais, se hoje estou a ler escritores digamos... "refinados" foi, única e exclusivamente, por causa deles, ou seja, ninguém nasce sabendo.

Isso não é nem uma ínfima parcela daquilo que represento no mundo (não que eu seja grande coisa), mas eu me auto-considero...

Ah, e aproveitando para agradecer a todo mundo que acessa o blog, obrigado mesmo. Fico muito feliz quando vejo as estátiscas (ilusão pura, pois o google é burro e nem sabe contar). Mas, o que posso fazer? Vivo de ilusão.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

ARGUMENTUM ORNITHOLOGICUM

Fecho os olhos e vejo um bando de pássaros. A visão dura um segundo, talvez menos; não sei quantos pássaros vi. Era definido ou indefinido seu número? O problema envolve o da existência de Deus. Se Deus existe, o número é definido, porque Deus sabe quantos pássaros vi. Se Deus não existe, o número é indefinido, porque ninguém conseguiu fazer a conta. Neste caso, vi menos de dez pássaros (digamos) e mais de um, mas não vi nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três ou dois pássaros. Vi um número entre dez e um, que não é nove, oito, sete, seis, cinco, etcétera. Esse número inteiro é inconcebível; ergo, Deus existe.


(Jorge Luis Borges)
Obras completas de Jorge Luis Borges, volume 2 / Jorge Luis Borges. - São Paulo : Globo, 2000.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Um Engano

A velhice apresenta características de vida, aparentemente, estranhas, das quais poderíamos, facilmente, desfazer a seguinte trova popular: “- A pipa do vovô não sobe mais!”. Tecer os fatos que comprovam o aniquilamento dessa proposição é o fito desta nota.

Certamente, poderíamos estar enganados naquilo que diz respeito à condição de vida de um indivíduo senil. E posso, agora, afirmar com ajuda de minhas emaranhadas letras que, a “pipa” do vovô, com um assegurado esforço, pode sim alçar vôo.

Aconteceu em um provinciano bairro de uma também provinciana cidade.

Sr. Nazário, que já portava por sobre os ombros os seus 86 anos, muito bem vividos por sinal, regrados à base de aventurescas práticas sexuais e sentimentos voluptuosos, habitava em uma singela casa com sua dedicada e primogênita filha, Jandira. Seu filo familiar era consideravelmente extenso, mas praticamente tudo sempre esteve a par de Jandira; Parruda, pacata, não apresentava um mínimo de ações revolucionárias, até então. Cumpria seus afazeres diários com total dedicação e amabilidade. Porém, levava em si algo muito incomum perante as donzelas de sua idade – 25 anos. Desde o falecimento de sua mãe, quando ainda não havia completado 10 anos de idade, esteve fadada a viver a vida no infinitivo, pois o que estava constantemente a fazer era: lavar, passar, cozinhar, arrumar, fraquejar...

Sr. Nazário era o oposto da filha, abominado por toda a vizinhança, adorava quando um trapo de bola, mais precisamente dos garotos que viviam a brincar na rua em fronte ao seu quintal, descia girolando em meio a sua propriedade. Maquiavelicamente, laçava mão ao seu afiadíssimo Canivete de Portela, e estraçalhava, impiedosamente, as humildes boletas. E o que mais lhe proporcionava prazer, não era em ver as bolinhas serem carcomidas por seu impiedoso Canivete, e sim observar os lacrimejantes olhos dos pobres diabos do outro lado da cerca, choramingando a perda do único instrumento lúdico do qual possuíam.

Mas as sandices de Sr. Nazário não pararam por aí, eis que chega o dia do qual irá, literalmente, “tirar” o atraso.

Certo dia, inspirada em certa passagem bíblica, Jandira se rebelou, e exigindo a sua parte na herança, se embrenhou por estas estradas-de-Deus-a-fora juntamente com o padeiro da esquina. Antes da partida, e depois de receber a devida fatia do testamento de seu pai, escreveu rispidamente uma carta, contando que já não mais agüentava aquela vida, as maluquices e manias do velho. Zarpou, então, em companhia do padeiro, em busca do “sonho” perfeito.

Como já era de se esperar, a família logo logo tratou de arrumar uma outra escrava, ou melhor, uma outra senhorinha que desse conta dos afazeres. Apareceu assim, como uma estrela cadente de amor e fornicação, Alzira. Desde quando Sr Nazário escorreu seus melentos olhos por sobre o “conteúdo” da jovem ninfa – uma mocinha de 21 anos, mestiça, sorriso de cristal, e um corpo, significativamente, muito similar a toda formosura de uma escultura grega, as veias do velho pululavam sob a pele, saltitantes e frenéticas. A novata, sabendo que se tratava de um indivíduo com mais de meio século de atraso físico, aceitou benevolamente o trampo; até então, achava que não apresentaria perigo.

Alzira, durante boa parte da semana, pausava na casa em companhia de Sr. Nazário. Geralmente em quartos separados. Um dia, alegando urina “solta”, e dizendo que não poderia passar toda a madrugada solitariamente agonizando por algo que a qualquer momento poderia ceder e vir a baixo, o velho, insistentemente, rogou a empregada para que dormisse junto a si. Alzira, obediente, fraquejou diante dos incessantes apelos do velho, e concordou em passar a noite junto a ele. No alto da madrugada, em meio à sonata dos grilos e de outros seres desgraciosos, Alzira, deitada ao chão sobre uma esteira, inquietou-se com um quase inaudito ruído. Imaginando que seria (e era) o velho, pois em se tratando do mal que estava a aniquilá-lo, o velho poderia, a qualquer momento, seguir até o mictório para atender ao pedido da bexiga que já não consegue controlar os esfíncteres e, consequentemente, reter o mijo.

Passou, e alguns minutos depois, Alzira foi pega certeiramente por um objeto resfriado diante do rosto. Num rompante, despertou em meio à ameaças e declamações de amor ao mesmo tempo. Não restavam dúvidas, o viço do velho havia aflorado de vez! E todo aquele frenesi se resumia a uma loucura sexual do velho para com Alzira. Em meio a socos, pontapés, arranhões, puxões de orelha, cabelos e gritos, Alzira jamais poderia imaginar o tamanho da força que se escondia por debaixo de toda daquela pele pregueada. O velho conseguia dominá-la com uma força surreal, parecia que naquele momento o espírito da libido lhe tivesse fornecendo quilos de guarnição para que saciasse toda a sua sede erótica.

É lógico que, como toda boa Matuta (com M maiúsculo), Alzira não se deixou levar por toda aquela situação, que não passava de uma simples caduquice de um octogenário já caduco.

No fim das contas, a ninfeta que exalava mórbidos desejos sexuais em Sr. Nazário, ergueu-se e, arremessando o velho a metros de distância, correu desesperadamente bairro abaixo.

Daí, na manhã seguinte, o velho foi encontrado morto depois de arrebentar a cabeça na quina do rodapé de seu quarto. Depois de sepultado, a única coisa que deixou ao mundo foi uma psicose assassina em Alzira. Consumida por aferradas lembranças, e retaliada de corpo e alma, desde então, ronda os mais indefesos asilos a corromper os famosos alvos de sua ânsia psicótica. Esperta, sabe se cuidar, e não avança um passo em falso hora nenhuma. Ninguém ainda obteve a esperteza de lhe por as mãos, e se tornou uma das bandidas mais procuradas pela polícia nacional (e futuramente, também ganhará fama internacional).

Nota de Utilidade Pública

E tu? Tens algum familiar do sexo masculino em asilos e casas de repouso? Se sim, tome cuidado e o leve para casa, pois, facilmente, ele poderá se tornar uma presa fácil através de toda a graciosidade de Alzira (a “corruptora” de velhos “indefesos”).

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Eu Preciso Estar Apaixonado



A coisa mais difícil que fiz é continuar a crer
Que existe alguém neste mundo maluco por mim
Do modo como as pessoas vêm e vão em vidas tão passageiras
Minha oportunidade poderia surgir e eu talvez nem soubesse.


Eu costumava dizer: "sem promessas", vamos manter tudo bem simples
Mas a liberdade só lhe ajuda a dizer adeus
Levou algum tempo para eu aprender que nada se leva de graça
O preço que paguei é suficiente para mim.

Sei que preciso amar alguém
Sei que desperdicei tempo demais
Sei que estou exigindo perfeição de um mundo por demais imperfeito
Sou tolo o suficiente para pensar que é o que encontrarei.


Portanto, aqui estou com bolsos cheios de boas intenções
Mas nenhuma delas vai me consolar esta noite
Estou bem acordado às quatro da manhã, sem um amigo à vista
Estou abandonado, mas está tudo bem comigo...


(The Carpenters - I Need To Be In Love)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Os Espelhos Velados

O Islã assevera que, no dia inapelável do Juízo, todo perpetrador da imagem de uma coisa viva ressuscitará com suas obras, e lhe será ordenado que as anime, e ele fracassará, e será entregue com ela ao fogo do castigo. Quando menino, conheci esse horror a uma duplicação ou multiplicação espectral da realidade, mas diante dos grandes espelhos. Seu infalível e contínuo funcionamento, sua perseguição de meus atos, sua pantomima cósmica eram então sobrenaturais, desde que anoitecia. Um de meus instantes rogos a Deus e a meu anjo da guarda era o de não sonhar com espelhos. Sei que os vigiava com inquietude. Algumas vezes temi que começassem a divergir da realidade; outras, ver neles meu rosto desfigurado por adversidades estranhas. Soube que esse temor está, outra vez, prodigiosamente no mundo. A história é muito simples. E desagradável.
Em mil novecentos e vinte e sete, conheci uma jovem sombria: primeiro por telefone (porque Júlia começou sendo uma voz sem nome e sem rosto); depois, em uma esquina ao entardecer. Tinha os olhos assustadoramente grandes, os cabelos negros e escorridos, o corpo estrito. Era neta e bisneta de federalistas, como eu de unitários, e essa antiga discórdia de nossos sangues era para nós um vínculo, uma melhor posse da pátria. Vivia com os seus em um desmantelado casarão de teto altíssimo, no ressentimento e na insipidez da decência pobre. De tarde – raras vezes de noite – saíamos para caminhar por seu bairro, que era o de Balvanera. Margeávamos o paredão da estrada de ferro; pela Sarmiento certa vez fomos até as clareiras do Parque Centenario. Entre nós não houve amor nem ficção de amor: eu adivinhava nela uma intensidade que era totalmente estranha à erótica, e a temia. É comum contar às mulheres, para estabelecer intimidade, traços verdadeiros ou apócrifos do passado pueril; devo ter-lhe falado dos espelhos e sugeri, assim, em 1928, uma alucinação que floresceria em 1931. Agora, acabo de saber que ela enlouqueceu e que em seu quarto os espelhos estão velados, porque neles vê meu reflexo, usurpando o seu, e treme e se cala e diz que eu a persigo magicamente.
Infausta servidão a de minha face, a de uma de minhas antigas faces. Esse odioso destino de minhas feições tem que me tornar odioso também, mas já não me importa.
(Jorge Luis Borges)
Obras completas de Jorge Luis Borges, volume 2 / Jorge Luis Borges. - São Paulo : Globo, 2OOO.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Aversão

Havia um tempo em que uma terrível carga aracnofóbica circundava todas as minhas ações e movimentos. Caminhava periciando tudo e todos. Esta tremenda fobia por aranhas começou bem cedo, lá nos meus oito anos de idade. Reza minha mãe que, deitado tranquilamente sobre a cama, batizado por Morfeu, nem imaginava que esta petulante criatura, com as patas veludosas e o corpo cabeludo, poderia estar a alguns centímetros de meus pés. Quando mamãe se deu conta, o bicho já estava se apossando de meu esquio corpo. Um estrépito grito acudiu-me, e quando me vi, estava por sobre a pele uma colossal e monstruosa tarântula. A partir de então, não mais passei noites em sossego, e não mais consegui me livrar de tamanho medo. Estava presente em tudo. Um dos piores momentos, acredito, era na escola, mais precisamente as aulas de Biologia Anatômica. Professor Gervázio, de um corpo e voz tão estranhos quanto o nome, venerava incessantemente aquele insípio laboratório que tanto me aterrorizava. Na verdade, todos idolatravam o lugar, menos eu. Os meus colegas, vidrados diante dos potes que resguardavam disformes e pavorosos animais de todos os filos e raças, caprichosamente, adoravam estar ali. Eu sempre me mantinha longe e secreto, sem conversas e amostras, pois somente um escorrer de olhar por aqueles recipientes, e o meu sangue já logo esguichava assombramento e depressão. O curioso foi o modo de como esta tenebrosa fobia se esvaiu, assim mesmo como chegou.

Num fim de tarde, sentado por sobre uma cadeira de balanço em minha sala de estar e lendo mais uma edição de “Verdade no Asfalto”, avisto por entre o vão da porta uma aranha. Ela, por sinal, era enormemente pré-histórica e, carregava na dianteira, uma imensa anca. Não suei frio como de costume, somente senti um pequeno pavor, e por alguns minutos o meu coração palpitou desaceleradamente. Eis que me surgi uma idéia, fantástica por sinal. Resolvo que já era hora de acabar com toda aquela frescuragem – pensando nos varões da família que, possivelmente, estavam a desencadear um frenético rebuliço em suas covas, conclui: “Chega disso! Esse bicho é só mais um a andar por sobre o mundo, assim como outros bilhões.”. Cismei, então, em brincar com o meu algoz. E brinquei.

Desci até a dispensa e lancei mão a uma vassoura, regressando a sala, ela ainda permanecia lá, imóvel e intacta. Fiz com que seguisse um itinerário estranho e atordoado. Ela andava de um lado para o outro apoiada pela vassoura. Da sala passou pra cozinha, da cozinha pro banheiro, do banheiro pra sala, e, assim, retornamos a cozinha novamente. Quando lhe dei um instante de descanso, percebi que já não mais estava sóbria como antes; intermitente, seguia trôpega por entre os ladrilhos. Diabolicamente, pensei: “farei com que fique ainda mais bêbada do que já está, e pagará pelos males de sua raça” - todos esses anos de prisão psicológica e paranóicas manias entorno deste propósito inútil. Calmamente, fui até ao armário, mirei a garrafa de álcool. Voltando a presença do desvalido animal, que naquele momento era ilustre, fardei todo o seu pestilento corpo com o líquido da garrafa. Rapidamente, ela, inquietante, resolve traçar seu próprio caminho, eu a deixei seguir em frente. Pobre, nunca imaginei que diria isso um dia, mas tive pena. Conseguiu avançar poucos passos através daquela sincronia mórbida de patas pegajosas. Findou-se ali mesmo a vida de mais uma aracnídea da face da Terra. Sucumbida, fardada ao desespero de ser mais um ser sem razão pelo mundo, não fazia idéia do que lhe arrastara até ali.

O melhor de tudo, não foi a morte da aranha, que foi morta, velada e sepultada, mas foi o findo de minha fobia. – poderá até os defensores dos animais a denunciarem-me aos órgãos competentes, mas, sei que estou com a consciência limpa, e cumpriria minha pena sem remorsos. Pois matei uma aranha, e sou um assassino de animais e de fobias. E isso me pareceu um choque terrível que eletrizava cada partícula do meu sangue, parecia-me que estavam a dissecar todo o terror e angustia sentidos desde o início dessa louca e desvairada repugnância. A partir daquele dia, não mais temi as aranhas e a nenhum outro bicho. Mas, como toda partida deixa marcas e mágoas, permaneço entristecido por não mais uma aranha se atrever a visitar minha humilde residência. Creio ter sido convertido a uma espécie de Basilisco, com um olhar negro e venenoso. Por um lado, fico um pouco estranho com esta sensação de não mais poder brincar com esse tipo de animal tão peçonhento e aniquilador do medo. Parece-me que o feitiço virou contra o feiticeiro, e, agora, existe mais uma fobia a ser incluída na lista da CID da qual compete a aracnologia, thiagonofobia.