Agora, olhando ao redor desse pesadelo, reflito sobre minha angústia em cair no abismo do sono novamente. Ao acordar, percebi que estava em falta na minha estante o primeiro volume da coleção de diálogos do Borges. Sei, e isso não me é assustador, que tu e meu livro, presos em meu pesadelo, seguirão por entre as ruas que não se vêem, a falsa luz da lua e o cipreste com seus monstruosos galhos, descobrindo o horror de um grande esforço que jamais poderá nos salvar.
Sentir-se eterno é dilatar o espaço que se estabelece entre as horas e a demolição do corpo. As letras nos servem de escudo contra esta infausta servidão da existência. A hora das letras é o único espaço pelo qual poderemos nos sentir eternos, sem mágoas e marcas de acharmos que não cumprimos, por completo, nossa parcela de esclarecimento do mundo. Venha, sente-se e sinta "A Hora das Letras".
terça-feira, 20 de março de 2012
À Sombra do Cipreste
Agora, olhando ao redor desse pesadelo, reflito sobre minha angústia em cair no abismo do sono novamente. Ao acordar, percebi que estava em falta na minha estante o primeiro volume da coleção de diálogos do Borges. Sei, e isso não me é assustador, que tu e meu livro, presos em meu pesadelo, seguirão por entre as ruas que não se vêem, a falsa luz da lua e o cipreste com seus monstruosos galhos, descobrindo o horror de um grande esforço que jamais poderá nos salvar.
sexta-feira, 9 de março de 2012
A morte para leigos
[Forma de expurgar o vazio da morte, escrevendo]
Nunca me inclinaria a escrever sobre a morte. A morte é algo que está para além do meu entendimento. Mas, como toda experiência de vida, podemos tirar algum aprendizado, mesmo que nada seja dado de absoluto. Aqui estou. Seis anos depois de sua partida. Dedico-te esta carta não por mero capricho, para dizer que: estou aqui, olha bem, sei escrever. Não. Nem sei escrever, e nem sei ao certo o que estou a escrever. Procuro escrever para tentar entender, e também porque não há nada de mais interessante para se fazer neste momento.
Bom, procuro, com estas pobres palavras, dizer o que representa a morte para minha pessoa. Esta falsa aparência que nos costuma ser a morte, nada mais é que uma ladra. Eu sei, sei, que rogar pelo aniquilamento da morte é rogar para uma vida eterna e pela imortalidade, o que, também, eu não suportaria. Pelas voltas que o mundo anda a dar, não vale a pena ser imortal. Mas, em verdade, gostaria que a morte fosse menos abusiva ou menos indecente. Como pode uma força, um raio de uma força metafísica nos roubar uma pessoa, assim, do nada? Sinceramente, esperava mais da natureza, se, como dizem, fosse tão perfeita como se apresenta, deveria nos dar uma explicação mais plausível para o fenômeno da morte. Muitos, e acredito serem menos numerosos do que tolos, tentam desvendar, mas, sem dúvidas, não conseguirão, porque a morte brinca-vos à cara!
Outro grande absurdo da morte é a mania iconoclasta do ser humano em sepultar corpos já sem sentidos próprios, e em mantê-los em pequenos castelos de tijolos e areia. Quer algo de mais horroroso que um cemitério? Não seria muito mais asséptico se todos fôssemos reduzidos à cinzas quando morrêssemos? Quanto trabalho pouparíamos a natureza. Bem, pensando, os vermes e baratas e minhocas necessitam de alimento, mas, acredito que deve haver outras formas melhores de se alimentar senão com carne humana. Acabaríamos de vez com todo esse espetáculo que é um velório e um sepultamento. É, nada mais, uma forma de prolongar todo o sofrimento de quem resta em vida. Bom para os “convidados”, porque, duvido, para os familiares do morto não há nenhuma forma de prazer! Mas esta é uma das grandes formas do ser humano se mostrar hipócrita e inútil. Não há melhor forma de ser conhecido e ter fama do que sendo um morto! Ninguém tem inveja de um morto, porque ninguém quer ser um morto. Por isso, fulano vira santo, depois que morre, fulano era tão simpático, depois que morre, fulano era uma pessoa excepcional, depois que morre. Quanta repugnância! Não conheço todos os mortos do mundo, e por isso não posso afirmar se todos foram santos, e nem, por outro lado, que também não foram.
Eu fiz o que pude para tentar esquecer sua breve presença neste mundo. Mas você foi como a varíola, tive quando criança e nunca mais consegui me livrar das pequenas chagas. As vezes, para tentar amenizar todo o buraco que se abriu na minha vida, penso que você está longe, num longo período de férias e descanso, é o que todos procuram pensar nos primeiros dias. A idéia de sempre ter-te visto com uma vassoura pelas mãos, a deslizar pelos cômodos da casa, reforça esta minha idéia de repouso. Trabalhas-te por demais em vida, merece, de certa forma, descanso.
Quanto a mim, penso que morrerei de repente, num rompante. Talvez, quando descobrirem esta nota, posso morrer, ou, até mesmo, antes de a descobrirem. E muitos dirão, nossa, viu? Foi brincar com a morte e acabou dando no que deu! Bando de inúteis! Outra grande e prodigiosa façanha da morte: provocar um rebuliço lingüístico por entre as pessoas. Principalmente se o motivo da morte não ficar claro. Aí, será um alvo facílimo para especulações. De que importa? Morreu, pronto e acabou! Ninguém precisa saber o motivo, claro, a não ser naquelas situações onde a morte se deu por via de um assassínio, mas isto pertence só às autoridades e família do dito cujo, não necessita ser foco de investigação popular. Vai, bando de abutres, cuidar de suas próprias mortes! Morrer deveria ser libertação. Mas, no que vejo, está mais para uma prisão, onde a imagem da pessoa morta, fica, ora por motivo de adulação, ora por motivos de ódio e ranços. E só para não dizer que falei pouco de mim, digo que sofri e sofro até os dias de hoje, e continuarei sofrendo pelos dias que me restarem. Muitos dizem que mal a enterrei e já estou completamente recuperado, por mais estranha que possa me parecer esta palavra, recuperação. O silencio é o ato mais incompreendido de todo o mundo. E aí está, outra grande força que a morte exerce sobre nós, o silêncio. E por isso que o luto está interligado ao silêncio. Não há palavra após a morte, não há até se aperceber que a vida continua acontecendo. Foi a única lição tirada por mim em todo este episódio. A vida do homem está traçada em linha reta, quando esta linha acaba, acaba e ponto. O que está por fora de nós, a natureza, as plantas, as estações, o universo, são um conjunto de vivências cíclicas, que se renovam e se reinventam a cada período. Por isso, nos é caro tal entendimento. Para nós, é uma vez para nunca mais!
Chega! Já estou a me repetir por demais. Eu queria escrever algo muito diferente do que escrevi, mas agora não quero voltar atrás e apagar tudo e reescrever. Por fim, ainda estou a espera que a humanidade ou, por milagre, alguém possa decifrar esta ordem que está posta dentro de todo o caos de nossas vidas, que chamamos de morte.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Oito de agosto, 2025
Num pequeno café, que abarcava três cômodos do quarteirão, deparei-me com um velho amigo, K. Com um olhar meio distraído, perguntou-me:
“- Como tem passado, Jacob?”
“- Indo, como de costume. O que posso dizer? Além da sucessão de desgraças das quais já estou acostumado, os labirintos, os livros sem letras... Nada disso é novo.”
“- O que houve? Especifique.”
“- Ah, não sei se foi sonho, talvez fosse um pequeno inferno, um inferno pessoal, creio. Tenho lá minhas dúvidas se, fosse minha cabeça um teatro, ela não teria especialidade em produzir peças trágicas.”
“- Sim. Quer dizer que tiveste um sonho noite passada?”
“- É, propriamente. Deixe ver. Talvez seja o suicídio um descuido pessoal. Talvez seja por isso que tenho passado. Descuidos. Minha vida está, atualmente, perpetrada por descuidos. Mas, com paciência, relato o ocorrido.
Estava eu a vagar por entre as ruelas da cidade. Não sabia meu paradeiro, não sabia em que rua estava, mas a única evidência era um pedaço de papel que trazia à mão, indicando uma espécie de reserva num tímido hotel ao fundo da estação ferroviária. Chegando a recepção, dei com uma secretária de aspecto mórbido e insolente. Com um gesto mecânico, apontou para o caderno de reservas onde eu deveria assinar para confirmar a hospedagem. Aí, meu caro, inicia todo o jogo labiríntico pelo qual passei nessa infundada noite. Quando firmei a caneta por sobre a superfície da agenda, percebi que meu nome já constava ali; e, pasme, com minha própria grafia. Um pouco trêmula, confesso, mas, senti que os indizíveis traços, de certa forma, pertenciam-me. Por isso, digo, nunca saberei se isso se passou dentro de um jogo de sonhos. Talvez eu já houvesse sonhado aquela situação em alguma outra noite de junho, mas, seguramente, não saberei. Até o momento, alguma coisa se moveu dentro do meu peito. O coração por sair pelo esôfago? Talvez. Mas senti que era algo mais sério, pensei: alguém se passou por mim, ou eu, no exato momento, estaria usurpando o lugar de alguém, interceptando algum outro sonho qualquer? A respeito, conjecturei sobre o que meus difamadores, que não são poucos e menos patéticos que eu, acham de mim, que sou um impostor - o que, agora, não é impossível de ser uma verdade. Então, fingi passar a caneta pelos traços já rabiscados no caderno, e devolvi o tinteiro à secretária, que, com a língua presa aos dentes, disse, “quarto 22”. Era o que eu temia. Parecia que algo em meu íntimo rogava a Deus, a um indeterminado Deus, a qualquer Deus que não fosse aquele o número do quarto. Subi as escadarias. Afoito, percebi que o recinto já se encontrava ocupado. Adentrei, cauteloso, e vi um alguém sentado a cama, de fronte para a porta central. Resignado, olhando em sua face um pouco cansada, um pouco pálida, disse: "lembro-me de rostos do ocidente e do oriente, mas não estabeleço relação com esta cara cansada." Infausta servidão! Era eu. Um pouco pálido, um pouco mais velho. Eu. Depois, ao notar minha chegada ao alpendre, virou em minha direção e disse: "Tudo isto é um delírio?" Eu, contemplando novamente sua face, não disse nada por um longo tempo. “Não tenha medo, Jacob, eu sou você e você é eu, porém apenas com certa disfunção de tempo, mas somos nós. Três noites tenho caminhado para entrar em teus sonhos. Gostaria de conversar, por isso estou aqui. Primeiramente, na verdade, isto não é um sonho. Estamos em 8 de agosto de 2025. É certo que não consigo entender, neste momento eu, acordado, sou você, e você dorme tranqüila e profundamente em sua casa na rua Pisco. Por sinal, não sou apenas um sonho dentro de um sonho, sou tua consciência dentro da realidade”. Observava o quarto como naquelas tardes de domingo quando minha vida se apresentava tão triste quanto uma seção de psicanálise. Sentava-se, levantava-se. Não sabia se interpor por entre os móveis. Logo, numa ruptura, disse. “Não poderás calcular o efêmero em sua vida. És mais intermitente que um trem, ou melhor, até mesmo os trens têm pontos fixos e lugares precisos.” Parecia-me que estava pondo a si mesmo à prova. Depois de certo tempo, já não conseguindo segurar as pernas, escorei-me à cama e repousei no primeiro assento. Olhando pela vidraça, o jardim esfumaçado pela neblina, ele disse em voz lenta, como se estivesse a repetir trechos ontológicos de Shakespeare e parábolas messiânicas: “não direi nada a respeito, que os mortos enterrem seus mortos. Não tenhas medo, Jacob, isto não é uma culpa pessoal, ponha-a em qualquer fato corriqueiro e cotidiano. Não é preciso ser Borges para se encontrar dentro de uma sucessiva e fantástica interposição de espelhos.” Da janela encravada ao lado direito do quarto, vi uma sombra fantasmagórica e irregular atravessar as cortinas de seda. Um grito interno incorreu-me, abafado e incrustado dentro de meu estômago. Senti que também morria. Quanto mais se afastava, mais sentia-me incorpóreo. Minha pele, infértil de todo e qualquer sentido, não mais suportava a doce pluma da morte. Não vi nada, a neblina invadiu todo o quarto e, no mesmo instante, o mesmo se pôs a rodopiar e girar de forma que eu não conseguia estabelecer uma órbita permanente. Após, ergui a cabeça em direção a porta, olhei por entre o vão e estava ali, à espera que eu dissesse algo. “É deplorável que tenhas uma vida descolorida e igual, como a palma de uma mão. Não procure torná-la menos suportável, Jacob. A morte usa-te constantemente." Numa rajada de segundo, ele desapareceu. Ao sair do hotel, olhei em direção ao velho e deteriorado chafariz do pátio principal. Nada me aturdia. Senti, no ato, que muitos outros sonhos esperavam-me até aquele dia.
Acaba-se aqui o sonho. Veja só, coisa mais estranha, K.”
“- Pois sim, amigo. Muito estranha, e, arriscaria dizer, como todos os sonhos, fantástico!”
“- K, poderia eu arriscar em dizer que meu suicídio se dará em 8 de agosto de 2025?”
“- Quem saberá, Jacob? Creio que nem mesmo tu saberás. É só um sonho. Quer saber? Marcamos uma partida de pôquer à noite?”
“- Claro. Se trouxeres vinho..."
“- Combinado.”
domingo, 1 de janeiro de 2012
Madame Bovary c'est nous

Finalmente consigo aqui postar mais uma resenha. Esta, por sinal, é bem particular, e pelo próprio título já pode se deduzir de qual livro se trata. Exatamente, Madame Bovary.
Bom, finalizei a leitura há uns dias atrás, porém fiquei todo esse tempo pensando a respeito do que escrever, do que dizer sobre essa revolução. Não é bem um exagero, mas Madame Bovary pode ser considerado um livro revolucionário em minha vida. Sabe aquele tipo de leitura em que ao findar a última página, ficamos com o livro por sobre as mãos durante um bom tempo para pensarmos e tentarmos nos recompor? Foi isso o que me ocorreu.
Durante esses dias, andei pela internet procurando algo que abrisse meus caminhos, que amarrasse alguma questão significativa (pois todas são), que pudesse indicar algo de relevante a dizer em relação ao livro. Percebi, por se tratar de um livro centenário, de um clássico, que há inúmeros pareceres e resenhas circulando por aqui. O livro já foi alvo de vários estudos da literatura, da sociologia e, até mesmo, da inquieta psicanálise. Depois, fui percebendo que não devia buscar nada exterior, que se tratando de uma obra como essa, o que devemos fazer é buscar algo de particular, algo que nos tenha comovido (difícil até, pois o livro é um turbilhão de comoções), enfim. Pensei, pensei... E concluí exatamente isso.
Primeiro é preciso olhar para os personagens. Cada um representa o que temos de melhor e pior. É aquele tipo de história, acredito por se tratar do realismo, que não há vilões e nem mocinhas. Cada um representa o que bem somos e como nos portamos na sociedade e nos meios em que circulamos. A ingenuidade de Ema (personagem principal), seus sonhos, seus acessos de loucura e psicose, pode muito bem retratar a todos. É impossível não se identificar com alguma particularidade da vivência de Ema, com algum aspecto ou detalhe de seus comportamentos e exageros.
Não é de hoje que ouço falar de Madame Bovary como um grande clássico da literatura; adaptação cinematográfica; sobre a destreza de Flaubert, sua escrita pontual, o encaixe perfeito de palavras. Agora faz muito sentido, após a leitura, o que Jorge Luis Borges, em um de seus diálogos, disse sobre Flaubert. Segundo Borges, para o escritor Francês, era possível se encontrar no mundo um dicionário perfeito, onde, para cada situação, há uma palavra para se encaixar e definir. E isso fica muito evidente em Madame Bovary. Porque a sutileza vocabular de Flaubert impressiona e encanta. Mas, por outro lado, nada que atrapalhe ou deixe a leitura chata, muito pelo contrário.
Somente após entrar em contato direto com o livro é que podemos saber o que é, realmente, todo o universo de Flaubert. Ainda nos paira múltiplas perguntas pela cabeça. Como um homem em pleno século XIX conseguiu escrever e detalhar tão bem os anseios de uma mulher? Segundo o que andei lendo, Flaubert se inspirou numa paixão que manteve por uma mulher mais velha e casada. Talvez, pelos modos de uma época onde a moral cristã era tão bem preservada (tanto é que o livro e o próprio Flaubert foram alvos de um processo judicial) fez com que o escritor se tornasse sua própria Ema, seus desejos, suas vontades, seus pensamentos castrados pela barreira dos padrões comportamentais. Daí fica evidente que a liberdade de um, depende da liberdade do outro. E essa liberdade é uma possibilidade.
Regressando aos personagens, como já havia dito anteriormente, é impossível não se identificar. Durante todo o livro mantive afeição por Carlos, marido de Ema. Sempre me pareceu um bom homem, educado, sempre disposto a amar e ajudar Ema nos momentos de maiores tensões. Porém, cai, como grande parte dos personagens, na ingenuidade. Apesar de todas as qualidades, Carlos era muito ingênuo, muito "mocinho" para Ema. Ema sempre foi acima de seu tempo e espaço; Ema sabia o que não queria, mas não sabia o que queria. Amantes, viagens para Ruão, a compulsão por comprar, retratando muito bem os exageros femininos cometidos por grande parte das mulheres contemporâneas. Além de tudo, Ema também se torna ingênua ao longo da história. Não fica bastante explicito na obra, mas é perceptível que Ema sofre de algum distúrbio mental, de ordem psicológica (daí surge o interesse da psicanálise por sobre a obra, inaugurando até uma nova patologia para Ema, o bovarismo), tanto é que podemos ratificar essa questão no momento em que, não encontrando nenhuma alternativa para os problemas dos quais se afundou,a anti-heroína decide pelo suicídio (um dos momentos mais fortes da história). Seus acessos, seus sonhos exacerbados; Ema possuía uma grande dificuldade de relacionar seus sonhos e desejos com a realidade em que vivia.
E por fim, a característica que mais me aproximou de Ema. Pois eu também vivo numa província. O quão difícil é por em ordem nossos desejos por conta de um lugar pequeno. Pensar de acordo com os padrões estabelecidos, e não ter alternativa ou perspectivas de mudanças...
Ainda sigo na luta para encontrar o DVD da adaptação cinematográfica de Madame Bovary, mesmo que seja para download. Não vou desistir.
E como é de tradição, segue abaixo alguns trechos do livro, que se tornaram significativos para mim.
“Um homem não devia, ao contrário, primar em múltiplas atividades, saber iniciar a mulher nos embates da paixão, nos requintes da vida, enfim, em todos os mistérios? Mas aquele não ensinava, nada sabia, nada desejava. Supunha-se feliz; e ela não lhe podia perdoar aquela tranqüilidade tão bem assente, aquela gravidade serena, nem a própria felicidade que ele dava.”
“Ela não podia acreditar que as coisas pudessem surgir sempre iguais em lugares diferentes; e, uma vez que a parte já vivida fora má, tinha esperanças de que a que lhe restava viver havia de ser melhor.”
“Quanto a Ema, não se interrogava para saber se o amava. O amor, no seu entender, devia surgir de repente, com ruídos e fulgurações, tempestade dos céus que cai sobre a vida e a revolve, arranca as vontades como folhas e arrebata para o abismo do coração inteiro.”
“O dia seguinte foi para Ema um dia sombrio. Tudo lhe parecia envolto em uma negra atmosfera que pairava confusamente sobre as coisas, como o bento de inverno nos castelos abandonados. Era o devaneio do que não voltaria mais, a lassidão que nos toma depois de cada fato consumado, a dor, enfim, que nos traz a interrupção de todo o movimento habitual, a cessação brusca duma vibração prolongada.”
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
A vingança plena

quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Um tratado da razão
E como ao destino agrada as surpresas e malícias, começarei com um livro que se tornou um verdadeiro “tratado da razão” em minha vida. Um livro de Jean Paul Sartre, “A Idade da Razão”.
O que tenho a dizer sobre esta leitura é muito pouco, pois corro o mortal risco de reduzi-la a um meio número de palavras fortuitamente insignificantes. Falarei apenas do êxtase que me causou. Sem exageros, mas pode ser, realmente, considerada um abalo sísmico que me ocorreu nos pensamentos... e tudo o mais que caiba dentro deste órgão gelatinoso (?) e lamacento que carrego na cabeça. Ao longo da leitura, ia sendo atingido por pedradas (ou o termo que melhor aqui se encaixa não seria “letradas”?). E ao final, o que me fez pensar, e a única coisa que consegui carregar deste livro, verdadeiramente, seu título. Será que estou na “Idade da Razão”? Os fatos e acontecimentos narrados por Sartre muito se assimilam com os que passo no cotidiano em que vivo. As amizades, traições, a liberdade de ser o que se quer, e suas possibilidades. Aprendi, dentre muitas coisas, que a liberdade é uma possibilidade. Não sei se aqui estou a fazer uma explicação “errônea” de Sartre e sua filosofia existencialista, sinceramente, não sei. Só sei que este livro foi muito bem aceito por mim. Salvo uns poucos diálogos confusos (talvez seja por eu ter lido, principalmente, à noite, antes ou na hora do sono). Sei que, em muito tempo, não encerrava uma leitura com tantas perguntas, dúvidas e interpelações, principalmente acerca do “destino” dos personagens. Porque penso que os personagens, seja de qual livro for, são pessoas de carne e osso, cabeça, tronco e membro, assim mesmo como somos. E mesmo o autor alcunhando um ponto final na última parte da última página do livro, a história continua e os personagens seguem suas vidas. E isso se acentuou muito neste livro. Acredito que todo mundo possui sua “idade da razão”, e ela vem de maneira distinta, com variadas máscaras e disfarces, nos pegando de surdina. E, de repente, quando menos esperamos, nos transporta para o labirinto das decisões.
"Essas pobres meninas são muito tolas. Basta olhar para o senhor para perceber que é o tipo do sujeito capaz de fazer uma burrada, de derrubar copos ou quebrar espelhos. E no entanto elas confiam a gente como o senhor, o que têm de mais precioso. Afinal, recebem o que merecem."
"Boris não poderia amar uma mocinha de sua idade. Se ambos são jovens, não sabem como se conduzir, hesitam, tem-se a impressão de brincar de marido e mulher. Com as pessoas maduras, não. Elas dirigem e seu amor é consciente."
"Amizade não suporta crítica (...) Ela é feita de confiança."
""Os garotos", pensou, são vorazes, todos os sentidos deles parecem bocas."
"Ela colhia as homenagens como se fossem ofensas, era como se fizessem dela uma imagem talhada a machado, grosseira e fascinante, e que ela tivesse receio de topar. Somente ela mesma podia pensar certo a respeito de si própria. E pensava sem palavras, era uma certa terna, uma carícia."
"- Eu a acho simpática.
- Naturalmente. É a sua moral. Você quer sempre ser perfeito. Basta que alguém o deteste para que você se esforce por lhe descobrir qualidades."
"Quando a gente se levanta de manhã com enjôo e sabe que tem pela frente quinze horas por matar antes de tornar a dietar-se, que adianta ser livre? "Não ajuda a viver, a liberdade.""
"Nada faziam de mal, era quase uma brincadeira, mas a cumplicidade criava entre ambos um laço leve e encantador. E depois Marcelle não achava desagradável ter um pouco de vida pessoal, algo que lhe pertencesse de fato e que não fosse obrigada a repartir."
"Quando a gente não é casada, uma gravidez é tão sórdida quanto uma blenorragia. Estou com uma doença venérea, eis o que devo dizer-me."
"(...) não ter princípios é ainda um princípio..."
"Um aborto não é um infanticídio, é um assassínio metafísico."
"É preciso ter a coragem de fazer como todo mundo para não ser como ninguém."
"Ah! A família é como a varíola, a gente tem quando criança e fica marcada pelo resto da vida."
"(...) penso como você que não se é homem enquanto não se encontra alguma coisa pela qual se está disposto a morrer."
"A paz. A paz da boa gente, da gente honesta, da gente de bem, dos homens de boa vontade. Por que será a vontade deles a boa, e não a minha?"
"Quanto à liberdade, não era recomendável analisá-la demasiado, porque a gente deixava então de ser livre."
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Parecer
Pisco, 02 de Agosto de 1968.
Lembrarás disto. Certa noite, quando estávamos em uma de nossas observâncias, perguntaste-me por que causa ou razão eu mantinha tamanha tristeza. Pois bem, com esta carta, creio, conseguirei responder esta interpelação que há tanto me corrói.
Há muito tempo, não me deixam (e me repreendem por isso) ser triste. Parece-me que é um ato de heresia ser triste num mundo onde reina uma felicidade mais-que-imperfeita. Todos se dizem felizes, todos dizem que a felicidade é saudável, e faz até bem para o coração. Para o grande público isso parece muito óbvio, mas para mim não. Para mim há um grande e extenso “porém” a ser tracejado em meio a esta felicidade premeditada e falseada proclamada pelo ditirambo da alegria. Neste mundo onde, a cada minuto, descemos um degrau na escala do desespero, estamos todos, realmente, muito felizes por estarmos na plena e completa desgraça. O que quero, afinal, é meu velho e esmerado direito de ser triste, de viver minha tristeza; assim como a lua cheia vive a noite, como o contraste do brilho do sol permeia todo o céu azul celeste. Oh, magníficos senhores do engenho das formalidades, devolvam-me o direito de ser triste, de saborear minha tristeza, por favor! É certo que, nos dias de hoje, mais vale uma desgraça que uma alegria alheia. Estamos todos como cães farejadores prontos a esticar o focinho por cima das tristezas dos outros. Ninguém se dá conta que, bem ou mal, possa haver pessoas que gostem de manter suas tristezas inalteradas. Sintam suas tristezas! Ninguém mais sabe lidar com as eventualidades do mundo por causa, justamente, dessa falsa felicidade que nos insiste bater à porta. Eu sou triste, e não faço nada demais por ser assim. Isto sim é virtude. Ser triste é ser virtuoso. Porque a tristeza é uma das mais autênticas (ou se não é a mais autentica) condições do ser humano. É o que aguça, no mais alto grau, nosso paladar. Não quero maquilar minha tristeza, quero vive-la, como já disse. Quando estou triste esqueço-me dos movimentos, até mesmo esqueço que respiro. Não encare como um tipo de escapismo, pois não quero fugir da realidade, muito pelo contrário, estou sedento por experimentar o doce e amargo sabor dessa tristeza. E já esclareço por aqui de uma só fez que não desejo conselhos “interessados” sobre a “arte do viver”.
Possivelmente, não concordarás com, absolutamente, nada que vos escrevo, mas esse é meu direito, e, acima de qualquer outra coisa mundana, meu DEVER. E quando eu aprender a viver intensamente minha tristeza, saberei ser, autenticamente, feliz. É essa a felicidade que tanto digo, e só a tristeza é capaz de proporcionar.
Por mais, se faz necessário uma pequena distinção. Não confunda tristeza com sofrimento. Essa tristeza que proclamo não está, em nenhum aspecto de sua existência, ligada ao sofrimento e, por conseguinte, também, a depressão. O sofrimento e a depressão são causados por nossas relações terrenas, pelo apego que cultuamos a todo instante, seja por pessoas ou bens materiais. A tristeza, que vos falo, é causada, pura e simplesmente por vontade de se estar consigo mesmo. É uma espécie de desapego às coisas exteriores e um apego a nós. Dizem que só existimos em função dos outros. Ledo engano. Eu existo em função de mim mesmo. Por acaso, deixe de comer ou beber para ver esse desastre. Deixe de dormir, deixe de ir ao sanitário toda vez que seus esfíncteres não mais segurarem os dejetos que estão a sanear teu corpo. Morrerás, nada mais que isso, morrerás! Ou, que seja o caso, ficarás enfermo e entrevado em algum catre esquecido do resto do mundo. Ou proste-te em frente ao Grande Templo a pedir esmolas, e veja, ao fim do dia, o quanto ofereceram-te. Estes são os outros pelos quais tu vives? Estes homens só desejam tuas vísceras. Nada mais. E basta cairmos em tuas lábias para nos entregarmos a seus encantos e nos apegarmos infinitamente.
E findo aqui este breve diálogo com uma simples citação de nosso “Grande Mestre”:
“A vossa alegria é a vossa tristeza mascarada. E o mesmo poço que sai o vosso sorriso esteve muitas vezes em lágrimas.”
E como poderá ser de outra maneira?
Com estima,
