Sentir-se eterno é dilatar o espaço que se estabelece entre as horas e a demolição do corpo. As letras nos servem de escudo contra esta infausta servidão da existência. A hora das letras é o único espaço pelo qual poderemos nos sentir eternos, sem mágoas e marcas de acharmos que não cumprimos, por completo, nossa parcela de esclarecimento do mundo. Venha, sente-se e sinta "A Hora das Letras".
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
Um sonho vão
sábado, 14 de abril de 2012
Mais Um
É bem um drama o que vivi, ou vivo (?). Daí minha inclinação por heroínas trágicas e, também, uma forte propensão ao suicídio. Mas, a morte, neste instante, não me atrai
Certa noite, deitado em meu catre no alojamento, ouvi certos ruídos no limiar da porta. Logo, de súbito, apavorei-me com “Ulisses” por sobre o peito. Aproximei-me uns passos da porta e logo avistei pelo olhar mágico um vulto. Pareciam curvas verticais de um sujeito. E eram. O Diabo bateu-me a porta. Mas, caros amigos, em vossas cabeças, vejo, zumbem latidos de inquietação: como descobri que era o Diabo propriamente? Não era preciso descobrir, de logo e repentinamente se apercebia. Via-se em seu semblante um par de olhos humanos, como outro qualquer. Logo, o Diabo quis chá. Fui à cozinha, correndo, e trouxe chá. Após, travamos conversa.
Diabo: O que queres?
Eu: Quero algo a mais. Quero mais que a vida e a morte.
Diabo: Achas mesmo que conseguiria eu, um anjo caído, proporcionar-te certo desejo?
Eu: Sim. Já viveste nos céus e nas fossas. Já viste anjos e já viste querubins; presenciaste o mais pobre e o mais fétido do desejo humano; sabes bem onde se encontra a terrível e pestilenta necrose que aflinge toda a humanidade. Por isso, acho que consegues.
Diabo: Certo. Especifique.
Eu: Com cem mil consigo.
Diabo: Ah, é dinheiro. Suspeitei. Não pedes pouco, não é mesmo?
Eu: Achas?
Diabo: Sim. Por uma alma, sim. Hoje, caro jovem, recebo indiscriminadamente tantas almas que já não me vale à pena pagar por nehnuma outra. Recebo-as inteiramente de graça. É como se caíssem dos céus. Como chuva, entende? Não uso mais desses negócios. Hoje, não negocio mais nada, nem alma.
Eu: Compreendo. (Ar de extrema frustração e desespero. Já sabia que minha alma não valia nada para Deus, e, no exato momento, acabava de descobrir que também não valia nada para o Diabo).
Diabo: Mas, como gostei de ti, simpatizei com tua branca e miúda cara, vou oferecer-te algo. Ofereço-te treze mil. Então?
Eu: E... u... Eu... Aceito!
terça-feira, 10 de abril de 2012
Eu, Crime e Castigo

Falar sobre a literatura de Dostoievski é tratar sobre o que há de mais intenso e perturbador que há na alma humana.
É um ótimo ponto de partida para tratar deste livro que, sem exageros, considero o mais genial que já li. Bom, confesso que esse tipo de afirmação é muito reducionista, pois, seguramente, e pondo em relevância meu incipiente contato com a literatura, virão outros livros, outras leituras e outros escritores que se afirmarão mais geniais que este, ou que se equipararão a este. Não é fácil organizar todo o emaranhado psicológico de Crime e Castigo, porque é um livro chocante e, como disse de início, perturbador.
Sempre mantive muito interesse pela literatura russa. São aqueles tipos de leituras que lemos antes mesmo de pegarmos o livro e nos embrenharmos por suas páginas. É uma espécie de leitura do ouvido. Você ouve as pessoas falarem bem, elogiarem os grandes mestres russos por suas habilidades ficcionais e estilísticas, e, de tanto ouvir, você, de certa forma, se familiariza. Mas não é disso que venho tratar precisamente.
Depois de certo tempo, e justamente adquiri o livro por essas boas recomendações que sempre ouvi, resolvi lançar mão à pequena e volumosa edição de bolso que eu já havia comprado há um tempinho.
E pronto, começa a tortura, uma tortura necessária, digamos. Ao longo da leitura, estive em dúvidas se era eu ou Raskolnivov quem realmente sofria de alucinações e perturbações no espírito. Isso me faz crer que o modo como Dostoiévski opera toda a trama, o "jeito" com que ele escrevia, propriamente, torna o livro ainda mais genial. Escavando cada detalhe da alma, ou daquilo que se acredita ser a alma.
Crime e Castigo despertou em mim uma ânsia inaudita, um parto, uma expiação de uma culpa que, nem mesmo, sabia se existia (ou existia somente dentro do universo da narrativa, e acabei transpondo essa complexidade para a realidade. É algo a ser pensado). Essa é, a que considero, toda a habilidade de Dostoiévski. De forma que o leitor, colocando-se no lugar do narrador, acaba por se tornar quem fala sobre a trama, mas não só descreve, enumerando fatos e intercalando acontecimentos, mas quem sente, quem toca e passa. A leitura foi demorada, longa, conflituosa. Passava dias digerindo. Lia dez, vinte, trinta páginas... e sentia a necessidade de abandonar o livro por um tempo. Deixava-o abandonado, nem mesmo conseguia olhar para capa; sentia-me com “depressão pós-parto”, porque cada dezena de páginas que eu lia, era um parto. Mas, logo, voltava com fervor às pequenas páginas. A fluência da narrativa, a difícil digestão... Os diálogos inesquecíveis entre o assassino e o comissário de polícia. O desespero de uma alma e suas pressões externas.
Chego ao fim. Chego ao fim com uma sensação de querer mais sofrimento e mais castigo e mais dor e mais aflição... a idéia que Dostoievski nos transmite ao fim do livro, da possível recuperação e expiação do criminoso é o que me provocou maior inquietação. Um enigma. Crime e Castigo parece-me uma narrativa eterna (ou o é), e continuará, por via de seus leitores que sentiram Raskolnikov dentro de si, a tecer novos pequenos diálogos em suas almas, em suas consciências, materializando em seus cotidianos cada personagem, cada ação e cada ponto de efervescência. De resto, calo-me. Porque é o melhor a ser feito por agora. E é um dos direitos imprescindíveis de um leitor. Mas isso não é porque, ao fim da resenha, pretendo desmistificar alguma coisa, não, quero dizer que, precisamente, esse livro não é um livro de conversas, um livro fácil que nos serve para puxar um assunto e discorrer sobre algum fato corriqueiro. É algo de misterioso.
Mas confesso que sofri junto de Raskolnikov. Ou, na melhor das hipóteses, rachei a cabeça de uma velha.
terça-feira, 3 de abril de 2012
O Sonho Repetido
Levei eu três noites e três dias para me livrar deste sonho maldito. Não se pode sonhar o mesmo sonho por mais de duas vezes, isto é mentira. Por uma semana inteira sonhei o mesmo sonho, as mesmas repetições de rostos sem nomes, de vidas sem almas, de noites gritantes. Passava-se sempre no mesmo lugar, na mesma hora e com os mesmos personagens. Devem-se evitar, aqui, neste momento, certos detalhes do sonho, ao passo que o pobre escritor correrá o risco de enlouquecer, se não já estiver louco. Perdi noites, cravaram-me olheiras, psicoses, e não me libertei. Hoje estou livre, ao ponto de conseguir voltar e urdir este relato, que se aproximará o máximo da realidade, ou da realidade de minha memória, o que daria no mesmo.
Meus inimigos me detestam por eu ser quem sou. Mas eu não sei, certamente, quem eu sou, porque estou dentro de quem sou. Creio que só se sabe, efetivamente, quem se é, quando se está fora daquilo que se é. Logo, presumo que meus inimigos saibam, e disto evitam falar, quem sou realmente. O que vejo no espelho é apenas um deplorável castelo de pele e, mais recentemente, rugas. A prata, salpicada por meus fios de cabelos, já se mostra tão reluzente como a marca do juízo. Se não sou um amontoado de sonhos, sou um perambulo, um sonâmbulo da morte.
Quando sonhei o sonho pela primeira vez, não dei a mínima importância. Era apenas, pensei, mais uma forma da morte fazer uso de sua indizível face.
Numa capela ao largo de uma colina, desencadeava-se um velório. Até aqui, nada demais, velórios são eventos típicos dos meus sonhos. Poderia eu, caso tivesse uma veia e interesses por essas novas teorias que se vêem por aí, fundar uma empresa especializada em organizar eventos fúnebres. Acredito que minha memória daria para um ótimo catálogo de visitas.
Subindo uma pequena rampa, almofadada de folhas velhas e secas, deparei-me com um pequeno caixão, um caixão branco. Supostamente o branco representa e é portador da pureza e castidade, mas nunca se sabe, nem saberá quem realmente estava posto naquele lugar. Uma criança? Uma virgem? Não sei, e tive medo que abrissem a tampa e mostrassem o terrível corpo.
No recinto não havia mais pessoas senão um grupo de Freiras e um vigário. Não falavam, nada diziam. Quando perceberam minha presença, não souberam agir de outra forma senão com desprezo. É certo que tenho o dom de não existir em certas ocasiões, ou de não ser visto, o que, novamente, daria no mesmo. Quando pensei no que realmente significava minha presença naquele lugar e naquele evento, desencadeou-se um canto. Lá fora se ouvia gritos, apesar de dentro da capela não se ter ouvido um arranhão se quer. Do lado de fora um sujeito gritava que a morte é o fato mais nulo que pode acontecer a um homem. Dizia que se suicidaria para tratar sem ranços de sua tese. Não pensei que esse homem personificava algum de meus inimigos, por serem tão cheios de verdade e não menos numerosos.
Meu caro e simples leitor pode, neste instante, reparar que repito muitas idéias de outros relatos que escrevi. Mas, minha vida é uma condição insistente de repetições de temas e plágios. Plagiei-me por incapacidade e por falta de criatividade. É necessário, assim como é necessário esquecer.
Muito me sufocava o clima da instigante capela. Um odor de cera derretida penetrava pelo recinto de forma desesperadora. Chamuscadas de imagens fantasmagóricas, as paredes aparentavam não receber pintura há tempos. Muito abandonado estava o local, assim como o caixão e, provavelmente, o corpo. Intrigava-me, de fato, pensar se realmente havia um corpo ali, uma vez que o caixão não fora aberto em momento algum. Se posso supor que tudo não passava de um simulacro, tenho a certeza que minha mente é uma péssima máquina de repetir coisas e reproduzir a realidade. Eu não tenho certeza se as freiras permitiam minha presença, pois, em momento algum, olharam-me à face. O vigário, encurvado por sobre um velho livro a rabiscar traços inconciliáveis, murmurava alguma coisa.
E assim o sonho se repetia. Nada de além acontecia. Sempre acabava comigo ao pé de uma árvore de frutos desconhecidos. E o caixão permanecia imaculado, inviolável. Uma incógnita nesta sucessiva repetição de sonhos.
Levei mais um tempo para perceber que no caixão estava depositada toda a minha memória, dos tempos de meus antepassados do mar aos que hoje não abrem mão de tudo o que sabem. Para povoar o tempo, resolvi passar as três noites e os três dias lembrando a ordem e o número dos sonhos. A precisão é algo que não se pode conquistar sendo um simples ser humano, por isso, resolvi apenas consultar um brutal dicionário, o qual dizia: memória = nome.
terça-feira, 20 de março de 2012
À Sombra do Cipreste
Agora, olhando ao redor desse pesadelo, reflito sobre minha angústia em cair no abismo do sono novamente. Ao acordar, percebi que estava em falta na minha estante o primeiro volume da coleção de diálogos do Borges. Sei, e isso não me é assustador, que tu e meu livro, presos em meu pesadelo, seguirão por entre as ruas que não se vêem, a falsa luz da lua e o cipreste com seus monstruosos galhos, descobrindo o horror de um grande esforço que jamais poderá nos salvar.
sexta-feira, 9 de março de 2012
A morte para leigos
[Forma de expurgar o vazio da morte, escrevendo]
Nunca me inclinaria a escrever sobre a morte. A morte é algo que está para além do meu entendimento. Mas, como toda experiência de vida, podemos tirar algum aprendizado, mesmo que nada seja dado de absoluto. Aqui estou. Seis anos depois de sua partida. Dedico-te esta carta não por mero capricho, para dizer que: estou aqui, olha bem, sei escrever. Não. Nem sei escrever, e nem sei ao certo o que estou a escrever. Procuro escrever para tentar entender, e também porque não há nada de mais interessante para se fazer neste momento.
Bom, procuro, com estas pobres palavras, dizer o que representa a morte para minha pessoa. Esta falsa aparência que nos costuma ser a morte, nada mais é que uma ladra. Eu sei, sei, que rogar pelo aniquilamento da morte é rogar para uma vida eterna e pela imortalidade, o que, também, eu não suportaria. Pelas voltas que o mundo anda a dar, não vale a pena ser imortal. Mas, em verdade, gostaria que a morte fosse menos abusiva ou menos indecente. Como pode uma força, um raio de uma força metafísica nos roubar uma pessoa, assim, do nada? Sinceramente, esperava mais da natureza, se, como dizem, fosse tão perfeita como se apresenta, deveria nos dar uma explicação mais plausível para o fenômeno da morte. Muitos, e acredito serem menos numerosos do que tolos, tentam desvendar, mas, sem dúvidas, não conseguirão, porque a morte brinca-vos à cara!
Outro grande absurdo da morte é a mania iconoclasta do ser humano em sepultar corpos já sem sentidos próprios, e em mantê-los em pequenos castelos de tijolos e areia. Quer algo de mais horroroso que um cemitério? Não seria muito mais asséptico se todos fôssemos reduzidos à cinzas quando morrêssemos? Quanto trabalho pouparíamos a natureza. Bem, pensando, os vermes e baratas e minhocas necessitam de alimento, mas, acredito que deve haver outras formas melhores de se alimentar senão com carne humana. Acabaríamos de vez com todo esse espetáculo que é um velório e um sepultamento. É, nada mais, uma forma de prolongar todo o sofrimento de quem resta em vida. Bom para os “convidados”, porque, duvido, para os familiares do morto não há nenhuma forma de prazer! Mas esta é uma das grandes formas do ser humano se mostrar hipócrita e inútil. Não há melhor forma de ser conhecido e ter fama do que sendo um morto! Ninguém tem inveja de um morto, porque ninguém quer ser um morto. Por isso, fulano vira santo, depois que morre, fulano era tão simpático, depois que morre, fulano era uma pessoa excepcional, depois que morre. Quanta repugnância! Não conheço todos os mortos do mundo, e por isso não posso afirmar se todos foram santos, e nem, por outro lado, que também não foram.
Eu fiz o que pude para tentar esquecer sua breve presença neste mundo. Mas você foi como a varíola, tive quando criança e nunca mais consegui me livrar das pequenas chagas. As vezes, para tentar amenizar todo o buraco que se abriu na minha vida, penso que você está longe, num longo período de férias e descanso, é o que todos procuram pensar nos primeiros dias. A idéia de sempre ter-te visto com uma vassoura pelas mãos, a deslizar pelos cômodos da casa, reforça esta minha idéia de repouso. Trabalhas-te por demais em vida, merece, de certa forma, descanso.
Quanto a mim, penso que morrerei de repente, num rompante. Talvez, quando descobrirem esta nota, posso morrer, ou, até mesmo, antes de a descobrirem. E muitos dirão, nossa, viu? Foi brincar com a morte e acabou dando no que deu! Bando de inúteis! Outra grande e prodigiosa façanha da morte: provocar um rebuliço lingüístico por entre as pessoas. Principalmente se o motivo da morte não ficar claro. Aí, será um alvo facílimo para especulações. De que importa? Morreu, pronto e acabou! Ninguém precisa saber o motivo, claro, a não ser naquelas situações onde a morte se deu por via de um assassínio, mas isto pertence só às autoridades e família do dito cujo, não necessita ser foco de investigação popular. Vai, bando de abutres, cuidar de suas próprias mortes! Morrer deveria ser libertação. Mas, no que vejo, está mais para uma prisão, onde a imagem da pessoa morta, fica, ora por motivo de adulação, ora por motivos de ódio e ranços. E só para não dizer que falei pouco de mim, digo que sofri e sofro até os dias de hoje, e continuarei sofrendo pelos dias que me restarem. Muitos dizem que mal a enterrei e já estou completamente recuperado, por mais estranha que possa me parecer esta palavra, recuperação. O silencio é o ato mais incompreendido de todo o mundo. E aí está, outra grande força que a morte exerce sobre nós, o silêncio. E por isso que o luto está interligado ao silêncio. Não há palavra após a morte, não há até se aperceber que a vida continua acontecendo. Foi a única lição tirada por mim em todo este episódio. A vida do homem está traçada em linha reta, quando esta linha acaba, acaba e ponto. O que está por fora de nós, a natureza, as plantas, as estações, o universo, são um conjunto de vivências cíclicas, que se renovam e se reinventam a cada período. Por isso, nos é caro tal entendimento. Para nós, é uma vez para nunca mais!
Chega! Já estou a me repetir por demais. Eu queria escrever algo muito diferente do que escrevi, mas agora não quero voltar atrás e apagar tudo e reescrever. Por fim, ainda estou a espera que a humanidade ou, por milagre, alguém possa decifrar esta ordem que está posta dentro de todo o caos de nossas vidas, que chamamos de morte.
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Oito de agosto, 2025
Num pequeno café, que abarcava três cômodos do quarteirão, deparei-me com um velho amigo, K. Com um olhar meio distraído, perguntou-me:
“- Como tem passado, Jacob?”
“- Indo, como de costume. O que posso dizer? Além da sucessão de desgraças das quais já estou acostumado, os labirintos, os livros sem letras... Nada disso é novo.”
“- O que houve? Especifique.”
“- Ah, não sei se foi sonho, talvez fosse um pequeno inferno, um inferno pessoal, creio. Tenho lá minhas dúvidas se, fosse minha cabeça um teatro, ela não teria especialidade em produzir peças trágicas.”
“- Sim. Quer dizer que tiveste um sonho noite passada?”
“- É, propriamente. Deixe ver. Talvez seja o suicídio um descuido pessoal. Talvez seja por isso que tenho passado. Descuidos. Minha vida está, atualmente, perpetrada por descuidos. Mas, com paciência, relato o ocorrido.
Estava eu a vagar por entre as ruelas da cidade. Não sabia meu paradeiro, não sabia em que rua estava, mas a única evidência era um pedaço de papel que trazia à mão, indicando uma espécie de reserva num tímido hotel ao fundo da estação ferroviária. Chegando a recepção, dei com uma secretária de aspecto mórbido e insolente. Com um gesto mecânico, apontou para o caderno de reservas onde eu deveria assinar para confirmar a hospedagem. Aí, meu caro, inicia todo o jogo labiríntico pelo qual passei nessa infundada noite. Quando firmei a caneta por sobre a superfície da agenda, percebi que meu nome já constava ali; e, pasme, com minha própria grafia. Um pouco trêmula, confesso, mas, senti que os indizíveis traços, de certa forma, pertenciam-me. Por isso, digo, nunca saberei se isso se passou dentro de um jogo de sonhos. Talvez eu já houvesse sonhado aquela situação em alguma outra noite de junho, mas, seguramente, não saberei. Até o momento, alguma coisa se moveu dentro do meu peito. O coração por sair pelo esôfago? Talvez. Mas senti que era algo mais sério, pensei: alguém se passou por mim, ou eu, no exato momento, estaria usurpando o lugar de alguém, interceptando algum outro sonho qualquer? A respeito, conjecturei sobre o que meus difamadores, que não são poucos e menos patéticos que eu, acham de mim, que sou um impostor - o que, agora, não é impossível de ser uma verdade. Então, fingi passar a caneta pelos traços já rabiscados no caderno, e devolvi o tinteiro à secretária, que, com a língua presa aos dentes, disse, “quarto 22”. Era o que eu temia. Parecia que algo em meu íntimo rogava a Deus, a um indeterminado Deus, a qualquer Deus que não fosse aquele o número do quarto. Subi as escadarias. Afoito, percebi que o recinto já se encontrava ocupado. Adentrei, cauteloso, e vi um alguém sentado a cama, de fronte para a porta central. Resignado, olhando em sua face um pouco cansada, um pouco pálida, disse: "lembro-me de rostos do ocidente e do oriente, mas não estabeleço relação com esta cara cansada." Infausta servidão! Era eu. Um pouco pálido, um pouco mais velho. Eu. Depois, ao notar minha chegada ao alpendre, virou em minha direção e disse: "Tudo isto é um delírio?" Eu, contemplando novamente sua face, não disse nada por um longo tempo. “Não tenha medo, Jacob, eu sou você e você é eu, porém apenas com certa disfunção de tempo, mas somos nós. Três noites tenho caminhado para entrar em teus sonhos. Gostaria de conversar, por isso estou aqui. Primeiramente, na verdade, isto não é um sonho. Estamos em 8 de agosto de 2025. É certo que não consigo entender, neste momento eu, acordado, sou você, e você dorme tranqüila e profundamente em sua casa na rua Pisco. Por sinal, não sou apenas um sonho dentro de um sonho, sou tua consciência dentro da realidade”. Observava o quarto como naquelas tardes de domingo quando minha vida se apresentava tão triste quanto uma seção de psicanálise. Sentava-se, levantava-se. Não sabia se interpor por entre os móveis. Logo, numa ruptura, disse. “Não poderás calcular o efêmero em sua vida. És mais intermitente que um trem, ou melhor, até mesmo os trens têm pontos fixos e lugares precisos.” Parecia-me que estava pondo a si mesmo à prova. Depois de certo tempo, já não conseguindo segurar as pernas, escorei-me à cama e repousei no primeiro assento. Olhando pela vidraça, o jardim esfumaçado pela neblina, ele disse em voz lenta, como se estivesse a repetir trechos ontológicos de Shakespeare e parábolas messiânicas: “não direi nada a respeito, que os mortos enterrem seus mortos. Não tenhas medo, Jacob, isto não é uma culpa pessoal, ponha-a em qualquer fato corriqueiro e cotidiano. Não é preciso ser Borges para se encontrar dentro de uma sucessiva e fantástica interposição de espelhos.” Da janela encravada ao lado direito do quarto, vi uma sombra fantasmagórica e irregular atravessar as cortinas de seda. Um grito interno incorreu-me, abafado e incrustado dentro de meu estômago. Senti que também morria. Quanto mais se afastava, mais sentia-me incorpóreo. Minha pele, infértil de todo e qualquer sentido, não mais suportava a doce pluma da morte. Não vi nada, a neblina invadiu todo o quarto e, no mesmo instante, o mesmo se pôs a rodopiar e girar de forma que eu não conseguia estabelecer uma órbita permanente. Após, ergui a cabeça em direção a porta, olhei por entre o vão e estava ali, à espera que eu dissesse algo. “É deplorável que tenhas uma vida descolorida e igual, como a palma de uma mão. Não procure torná-la menos suportável, Jacob. A morte usa-te constantemente." Numa rajada de segundo, ele desapareceu. Ao sair do hotel, olhei em direção ao velho e deteriorado chafariz do pátio principal. Nada me aturdia. Senti, no ato, que muitos outros sonhos esperavam-me até aquele dia.
Acaba-se aqui o sonho. Veja só, coisa mais estranha, K.”
“- Pois sim, amigo. Muito estranha, e, arriscaria dizer, como todos os sonhos, fantástico!”
“- K, poderia eu arriscar em dizer que meu suicídio se dará em 8 de agosto de 2025?”
“- Quem saberá, Jacob? Creio que nem mesmo tu saberás. É só um sonho. Quer saber? Marcamos uma partida de pôquer à noite?”
“- Claro. Se trouxeres vinho..."
“- Combinado.”
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
A vingança plena

quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Parecer
Pisco, 02 de Agosto de 1968.
Lembrarás disto. Certa noite, quando estávamos em uma de nossas observâncias, perguntaste-me por que causa ou razão eu mantinha tamanha tristeza. Pois bem, com esta carta, creio, conseguirei responder esta interpelação que há tanto me corrói.
Há muito tempo, não me deixam (e me repreendem por isso) ser triste. Parece-me que é um ato de heresia ser triste num mundo onde reina uma felicidade mais-que-imperfeita. Todos se dizem felizes, todos dizem que a felicidade é saudável, e faz até bem para o coração. Para o grande público isso parece muito óbvio, mas para mim não. Para mim há um grande e extenso “porém” a ser tracejado em meio a esta felicidade premeditada e falseada proclamada pelo ditirambo da alegria. Neste mundo onde, a cada minuto, descemos um degrau na escala do desespero, estamos todos, realmente, muito felizes por estarmos na plena e completa desgraça. O que quero, afinal, é meu velho e esmerado direito de ser triste, de viver minha tristeza; assim como a lua cheia vive a noite, como o contraste do brilho do sol permeia todo o céu azul celeste. Oh, magníficos senhores do engenho das formalidades, devolvam-me o direito de ser triste, de saborear minha tristeza, por favor! É certo que, nos dias de hoje, mais vale uma desgraça que uma alegria alheia. Estamos todos como cães farejadores prontos a esticar o focinho por cima das tristezas dos outros. Ninguém se dá conta que, bem ou mal, possa haver pessoas que gostem de manter suas tristezas inalteradas. Sintam suas tristezas! Ninguém mais sabe lidar com as eventualidades do mundo por causa, justamente, dessa falsa felicidade que nos insiste bater à porta. Eu sou triste, e não faço nada demais por ser assim. Isto sim é virtude. Ser triste é ser virtuoso. Porque a tristeza é uma das mais autênticas (ou se não é a mais autentica) condições do ser humano. É o que aguça, no mais alto grau, nosso paladar. Não quero maquilar minha tristeza, quero vive-la, como já disse. Quando estou triste esqueço-me dos movimentos, até mesmo esqueço que respiro. Não encare como um tipo de escapismo, pois não quero fugir da realidade, muito pelo contrário, estou sedento por experimentar o doce e amargo sabor dessa tristeza. E já esclareço por aqui de uma só fez que não desejo conselhos “interessados” sobre a “arte do viver”.
Possivelmente, não concordarás com, absolutamente, nada que vos escrevo, mas esse é meu direito, e, acima de qualquer outra coisa mundana, meu DEVER. E quando eu aprender a viver intensamente minha tristeza, saberei ser, autenticamente, feliz. É essa a felicidade que tanto digo, e só a tristeza é capaz de proporcionar.
Por mais, se faz necessário uma pequena distinção. Não confunda tristeza com sofrimento. Essa tristeza que proclamo não está, em nenhum aspecto de sua existência, ligada ao sofrimento e, por conseguinte, também, a depressão. O sofrimento e a depressão são causados por nossas relações terrenas, pelo apego que cultuamos a todo instante, seja por pessoas ou bens materiais. A tristeza, que vos falo, é causada, pura e simplesmente por vontade de se estar consigo mesmo. É uma espécie de desapego às coisas exteriores e um apego a nós. Dizem que só existimos em função dos outros. Ledo engano. Eu existo em função de mim mesmo. Por acaso, deixe de comer ou beber para ver esse desastre. Deixe de dormir, deixe de ir ao sanitário toda vez que seus esfíncteres não mais segurarem os dejetos que estão a sanear teu corpo. Morrerás, nada mais que isso, morrerás! Ou, que seja o caso, ficarás enfermo e entrevado em algum catre esquecido do resto do mundo. Ou proste-te em frente ao Grande Templo a pedir esmolas, e veja, ao fim do dia, o quanto ofereceram-te. Estes são os outros pelos quais tu vives? Estes homens só desejam tuas vísceras. Nada mais. E basta cairmos em tuas lábias para nos entregarmos a seus encantos e nos apegarmos infinitamente.
E findo aqui este breve diálogo com uma simples citação de nosso “Grande Mestre”:
“A vossa alegria é a vossa tristeza mascarada. E o mesmo poço que sai o vosso sorriso esteve muitas vezes em lágrimas.”
E como poderá ser de outra maneira?
Com estima,
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Um incidente cotidiano
Aos sonhos agradam as alucinações, ao fantástico, à forma...
Segundo o poeta norte-americano T. S. Eliot, poetas e escritores, geralmente, durante processo de criação, recebem a visita de uma musa (a inspiração). E esta musa pode vir silenciosamente, quando menos esperamos. Noite passada sonhei, ou melhor, acredito ter recebido a visita da musa. E, seguramente, por via de pequenos estilhaços, poderei, neste momento, redigir esta nota. Tentarei, subsidiado por minha turva memória e por minha deplorável condição humana, reconstituir o fato.
Sonhei que estava em meu próprio velório. Já era de se esperar que houvesse pouca gente, pois em vida, certamente, não cultivei extensa quantidade de amigos e conhecidos. Se não trai a memória, dos que se encontravam presentes, uns poucos eram parentes, dois grandes e únicos amigos que possui na vida e, de resto, não consegui identificar a fisionomia. Provavelmente era o coveiro ou outro funcionário do cemitério aguardando o findar de todo aquele ritual para organizar o necrotério e encerrar o expediente. Lembro-me ter adentrado mansamente à capela onde meu corpo estava por ser velado. Entrei sentindo como se estivesse indo ao encontro de um ser místico que iria vaticinar algo sobre meu destino. Não sei como tomei conhecimento deste fato, talvez fosse por via daquela infausta voz do locutor de notas de falecimento, com aquele carro vermelho a percorrer as ruelas da cidade a anunciar, com uma voz embargada, o falecimento de alguém que, certamente, era conhecido. Voltei-me à capela. Por vezes, vi meu corpo ser possuído por uma onda de voluptuosidade, e nesse ponto, já não sabia se sonhava ou se vivia aquilo realmente, mas senti que os detalhes do acontecimento se tornavam tão reais ao ponto de nem me dar cota se encontrava-me num velório de fato ou num sonho. Quando cheguei frente ao caixão, percebi que eu dormia, ou melhor, acho que dormia porque não sei se os mortos dormem, talvez eu estivesse mais acordado que eu mesmo. O rosto mantinha uma expressão serena e acolhedora, uns poucos vultos arroxeados adornavam-me os olhos. As flores, ajustadas por sobre o peitoral, eram um tanto mal-cheirosas, mas possuíam um tom muito vivo e audaz, pareciam festejar algum dia santo. Lembro-me ainda que, durante todo o velório, estive tomado por uma pequena aflição, estive a procura de algum fato ou conversa que confirmasse a causa de minha morte, mas parecia que os presentes não me viam, ou não notavam minha presença. Arrastei alguns passos dentro da capela, refletindo sobre o que se passou em minha vida e como cheguei àquela situação. E notei outro fato curioso, com estratégica presença em (quase) todos os velórios, as lágrimas. Quase não havia lágrimas, e me senti completo por isso. Um velório sem lágrimas. Recordo (não tenho o direito de pronunciar este verbo, apenas um único homem em toda a história teve esse direito, e tal homem está morto) ter observado muitos detalhes, mas jamais conseguirei materializar nenhum deles neste conto, por isso, por si só, o conto está falhado. Falhado porque não tenho certeza se sonhei ou se estou inventado este fato, se o vivi ou se alguém o contou, ou contará, em algum ínfimo instante de toda a eternidade.
Ao mesmo tempo, me afligia ainda mais por não saber o motivo da minha morte. Céus, disse olhando ao redor da capela – ao lado de fora - as tumbas e mausoléus abandonados com a pintura a se deteriorar, será que nem mesmo poderei saber do que morri? Não tenho esse direito? Por vez, pensei, não me vi nascer, nem sei ao certo a data em que foi expurgado e lançado a este mundo – só o sei porque o tabelião, ao assinar uma fresta de papel, alcunhou uma abstrata data qualquer, e como minha mãe sofria de certa intermitência na memória, jamais saberei ao certo minha data de nascimento - agora me pregam tamanha peça, não posso ver e nem, muito menos, saber a causa de minha morte. Mas, talvez, a última coisa que saberemos nesse mundo é o motivo de nossa morte, ou não. Talvez, aquele ainda não fosse o momento. Sabendo que não encontraria resposta, voltei ao velório, estava impaciente para ver a cova, minha breve e negra morada, até a voraz corrupção de toda minha face material. Novamente percebi as pessoas, como já disse, eram poucas, às vezes entrava um e outro, algum curioso que transitava na rua ou algum outro sem compromisso, mas, definitivamente, os presentes fixos eram poucos. Enfim, deu-se o fim, é fácil e perceptível reconhecer o clima instintivo que exala dos olhos humanos. Observei um profundo desatar de suspiros, olhares caridosos e, por fim, o coveiro lançar mão àquilo que dava tampa ao caixão. Quando fecharam o caixão, senti que algo em mim não estava em seu perfeito estado, como os intestinos, os pulmões, as vísceras, e todos os demais sistemas. Já a partir daí não consigo lembrar mais nada, justamente o momento em que eu tanto almejava presenciar, o sepultamento. Já não me recordo, nem sei se o houve. Na verdade, nem mesmo sabia se eu estava morto, ou sonhando, só o sabia porque me vi num caixão e na tradicional posição decúbito dorsal. E o sonho acabou juntamente com o fechamento do caixão.
Ao amanhecer, despertei com um pouco de enxaqueca e sem saber onde havia colocado meus óculos.