
Sentir-se eterno é dilatar o espaço que se estabelece entre as horas e a demolição do corpo. As letras nos servem de escudo contra esta infausta servidão da existência. A hora das letras é o único espaço pelo qual poderemos nos sentir eternos, sem mágoas e marcas de acharmos que não cumprimos, por completo, nossa parcela de esclarecimento do mundo. Venha, sente-se e sinta "A Hora das Letras".
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
A vingança plena

quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Um tratado da razão
E como ao destino agrada as surpresas e malícias, começarei com um livro que se tornou um verdadeiro “tratado da razão” em minha vida. Um livro de Jean Paul Sartre, “A Idade da Razão”.
O que tenho a dizer sobre esta leitura é muito pouco, pois corro o mortal risco de reduzi-la a um meio número de palavras fortuitamente insignificantes. Falarei apenas do êxtase que me causou. Sem exageros, mas pode ser, realmente, considerada um abalo sísmico que me ocorreu nos pensamentos... e tudo o mais que caiba dentro deste órgão gelatinoso (?) e lamacento que carrego na cabeça. Ao longo da leitura, ia sendo atingido por pedradas (ou o termo que melhor aqui se encaixa não seria “letradas”?). E ao final, o que me fez pensar, e a única coisa que consegui carregar deste livro, verdadeiramente, seu título. Será que estou na “Idade da Razão”? Os fatos e acontecimentos narrados por Sartre muito se assimilam com os que passo no cotidiano em que vivo. As amizades, traições, a liberdade de ser o que se quer, e suas possibilidades. Aprendi, dentre muitas coisas, que a liberdade é uma possibilidade. Não sei se aqui estou a fazer uma explicação “errônea” de Sartre e sua filosofia existencialista, sinceramente, não sei. Só sei que este livro foi muito bem aceito por mim. Salvo uns poucos diálogos confusos (talvez seja por eu ter lido, principalmente, à noite, antes ou na hora do sono). Sei que, em muito tempo, não encerrava uma leitura com tantas perguntas, dúvidas e interpelações, principalmente acerca do “destino” dos personagens. Porque penso que os personagens, seja de qual livro for, são pessoas de carne e osso, cabeça, tronco e membro, assim mesmo como somos. E mesmo o autor alcunhando um ponto final na última parte da última página do livro, a história continua e os personagens seguem suas vidas. E isso se acentuou muito neste livro. Acredito que todo mundo possui sua “idade da razão”, e ela vem de maneira distinta, com variadas máscaras e disfarces, nos pegando de surdina. E, de repente, quando menos esperamos, nos transporta para o labirinto das decisões.
"Essas pobres meninas são muito tolas. Basta olhar para o senhor para perceber que é o tipo do sujeito capaz de fazer uma burrada, de derrubar copos ou quebrar espelhos. E no entanto elas confiam a gente como o senhor, o que têm de mais precioso. Afinal, recebem o que merecem."
"Boris não poderia amar uma mocinha de sua idade. Se ambos são jovens, não sabem como se conduzir, hesitam, tem-se a impressão de brincar de marido e mulher. Com as pessoas maduras, não. Elas dirigem e seu amor é consciente."
"Amizade não suporta crítica (...) Ela é feita de confiança."
""Os garotos", pensou, são vorazes, todos os sentidos deles parecem bocas."
"Ela colhia as homenagens como se fossem ofensas, era como se fizessem dela uma imagem talhada a machado, grosseira e fascinante, e que ela tivesse receio de topar. Somente ela mesma podia pensar certo a respeito de si própria. E pensava sem palavras, era uma certa terna, uma carícia."
"- Eu a acho simpática.
- Naturalmente. É a sua moral. Você quer sempre ser perfeito. Basta que alguém o deteste para que você se esforce por lhe descobrir qualidades."
"Quando a gente se levanta de manhã com enjôo e sabe que tem pela frente quinze horas por matar antes de tornar a dietar-se, que adianta ser livre? "Não ajuda a viver, a liberdade.""
"Nada faziam de mal, era quase uma brincadeira, mas a cumplicidade criava entre ambos um laço leve e encantador. E depois Marcelle não achava desagradável ter um pouco de vida pessoal, algo que lhe pertencesse de fato e que não fosse obrigada a repartir."
"Quando a gente não é casada, uma gravidez é tão sórdida quanto uma blenorragia. Estou com uma doença venérea, eis o que devo dizer-me."
"(...) não ter princípios é ainda um princípio..."
"Um aborto não é um infanticídio, é um assassínio metafísico."
"É preciso ter a coragem de fazer como todo mundo para não ser como ninguém."
"Ah! A família é como a varíola, a gente tem quando criança e fica marcada pelo resto da vida."
"(...) penso como você que não se é homem enquanto não se encontra alguma coisa pela qual se está disposto a morrer."
"A paz. A paz da boa gente, da gente honesta, da gente de bem, dos homens de boa vontade. Por que será a vontade deles a boa, e não a minha?"
"Quanto à liberdade, não era recomendável analisá-la demasiado, porque a gente deixava então de ser livre."
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Parecer
Pisco, 02 de Agosto de 1968.
Lembrarás disto. Certa noite, quando estávamos em uma de nossas observâncias, perguntaste-me por que causa ou razão eu mantinha tamanha tristeza. Pois bem, com esta carta, creio, conseguirei responder esta interpelação que há tanto me corrói.
Há muito tempo, não me deixam (e me repreendem por isso) ser triste. Parece-me que é um ato de heresia ser triste num mundo onde reina uma felicidade mais-que-imperfeita. Todos se dizem felizes, todos dizem que a felicidade é saudável, e faz até bem para o coração. Para o grande público isso parece muito óbvio, mas para mim não. Para mim há um grande e extenso “porém” a ser tracejado em meio a esta felicidade premeditada e falseada proclamada pelo ditirambo da alegria. Neste mundo onde, a cada minuto, descemos um degrau na escala do desespero, estamos todos, realmente, muito felizes por estarmos na plena e completa desgraça. O que quero, afinal, é meu velho e esmerado direito de ser triste, de viver minha tristeza; assim como a lua cheia vive a noite, como o contraste do brilho do sol permeia todo o céu azul celeste. Oh, magníficos senhores do engenho das formalidades, devolvam-me o direito de ser triste, de saborear minha tristeza, por favor! É certo que, nos dias de hoje, mais vale uma desgraça que uma alegria alheia. Estamos todos como cães farejadores prontos a esticar o focinho por cima das tristezas dos outros. Ninguém se dá conta que, bem ou mal, possa haver pessoas que gostem de manter suas tristezas inalteradas. Sintam suas tristezas! Ninguém mais sabe lidar com as eventualidades do mundo por causa, justamente, dessa falsa felicidade que nos insiste bater à porta. Eu sou triste, e não faço nada demais por ser assim. Isto sim é virtude. Ser triste é ser virtuoso. Porque a tristeza é uma das mais autênticas (ou se não é a mais autentica) condições do ser humano. É o que aguça, no mais alto grau, nosso paladar. Não quero maquilar minha tristeza, quero vive-la, como já disse. Quando estou triste esqueço-me dos movimentos, até mesmo esqueço que respiro. Não encare como um tipo de escapismo, pois não quero fugir da realidade, muito pelo contrário, estou sedento por experimentar o doce e amargo sabor dessa tristeza. E já esclareço por aqui de uma só fez que não desejo conselhos “interessados” sobre a “arte do viver”.
Possivelmente, não concordarás com, absolutamente, nada que vos escrevo, mas esse é meu direito, e, acima de qualquer outra coisa mundana, meu DEVER. E quando eu aprender a viver intensamente minha tristeza, saberei ser, autenticamente, feliz. É essa a felicidade que tanto digo, e só a tristeza é capaz de proporcionar.
Por mais, se faz necessário uma pequena distinção. Não confunda tristeza com sofrimento. Essa tristeza que proclamo não está, em nenhum aspecto de sua existência, ligada ao sofrimento e, por conseguinte, também, a depressão. O sofrimento e a depressão são causados por nossas relações terrenas, pelo apego que cultuamos a todo instante, seja por pessoas ou bens materiais. A tristeza, que vos falo, é causada, pura e simplesmente por vontade de se estar consigo mesmo. É uma espécie de desapego às coisas exteriores e um apego a nós. Dizem que só existimos em função dos outros. Ledo engano. Eu existo em função de mim mesmo. Por acaso, deixe de comer ou beber para ver esse desastre. Deixe de dormir, deixe de ir ao sanitário toda vez que seus esfíncteres não mais segurarem os dejetos que estão a sanear teu corpo. Morrerás, nada mais que isso, morrerás! Ou, que seja o caso, ficarás enfermo e entrevado em algum catre esquecido do resto do mundo. Ou proste-te em frente ao Grande Templo a pedir esmolas, e veja, ao fim do dia, o quanto ofereceram-te. Estes são os outros pelos quais tu vives? Estes homens só desejam tuas vísceras. Nada mais. E basta cairmos em tuas lábias para nos entregarmos a seus encantos e nos apegarmos infinitamente.
E findo aqui este breve diálogo com uma simples citação de nosso “Grande Mestre”:
“A vossa alegria é a vossa tristeza mascarada. E o mesmo poço que sai o vosso sorriso esteve muitas vezes em lágrimas.”
E como poderá ser de outra maneira?
Com estima,
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
Um incidente cotidiano
Aos sonhos agradam as alucinações, ao fantástico, à forma...
Segundo o poeta norte-americano T. S. Eliot, poetas e escritores, geralmente, durante processo de criação, recebem a visita de uma musa (a inspiração). E esta musa pode vir silenciosamente, quando menos esperamos. Noite passada sonhei, ou melhor, acredito ter recebido a visita da musa. E, seguramente, por via de pequenos estilhaços, poderei, neste momento, redigir esta nota. Tentarei, subsidiado por minha turva memória e por minha deplorável condição humana, reconstituir o fato.
Sonhei que estava em meu próprio velório. Já era de se esperar que houvesse pouca gente, pois em vida, certamente, não cultivei extensa quantidade de amigos e conhecidos. Se não trai a memória, dos que se encontravam presentes, uns poucos eram parentes, dois grandes e únicos amigos que possui na vida e, de resto, não consegui identificar a fisionomia. Provavelmente era o coveiro ou outro funcionário do cemitério aguardando o findar de todo aquele ritual para organizar o necrotério e encerrar o expediente. Lembro-me ter adentrado mansamente à capela onde meu corpo estava por ser velado. Entrei sentindo como se estivesse indo ao encontro de um ser místico que iria vaticinar algo sobre meu destino. Não sei como tomei conhecimento deste fato, talvez fosse por via daquela infausta voz do locutor de notas de falecimento, com aquele carro vermelho a percorrer as ruelas da cidade a anunciar, com uma voz embargada, o falecimento de alguém que, certamente, era conhecido. Voltei-me à capela. Por vezes, vi meu corpo ser possuído por uma onda de voluptuosidade, e nesse ponto, já não sabia se sonhava ou se vivia aquilo realmente, mas senti que os detalhes do acontecimento se tornavam tão reais ao ponto de nem me dar cota se encontrava-me num velório de fato ou num sonho. Quando cheguei frente ao caixão, percebi que eu dormia, ou melhor, acho que dormia porque não sei se os mortos dormem, talvez eu estivesse mais acordado que eu mesmo. O rosto mantinha uma expressão serena e acolhedora, uns poucos vultos arroxeados adornavam-me os olhos. As flores, ajustadas por sobre o peitoral, eram um tanto mal-cheirosas, mas possuíam um tom muito vivo e audaz, pareciam festejar algum dia santo. Lembro-me ainda que, durante todo o velório, estive tomado por uma pequena aflição, estive a procura de algum fato ou conversa que confirmasse a causa de minha morte, mas parecia que os presentes não me viam, ou não notavam minha presença. Arrastei alguns passos dentro da capela, refletindo sobre o que se passou em minha vida e como cheguei àquela situação. E notei outro fato curioso, com estratégica presença em (quase) todos os velórios, as lágrimas. Quase não havia lágrimas, e me senti completo por isso. Um velório sem lágrimas. Recordo (não tenho o direito de pronunciar este verbo, apenas um único homem em toda a história teve esse direito, e tal homem está morto) ter observado muitos detalhes, mas jamais conseguirei materializar nenhum deles neste conto, por isso, por si só, o conto está falhado. Falhado porque não tenho certeza se sonhei ou se estou inventado este fato, se o vivi ou se alguém o contou, ou contará, em algum ínfimo instante de toda a eternidade.
Ao mesmo tempo, me afligia ainda mais por não saber o motivo da minha morte. Céus, disse olhando ao redor da capela – ao lado de fora - as tumbas e mausoléus abandonados com a pintura a se deteriorar, será que nem mesmo poderei saber do que morri? Não tenho esse direito? Por vez, pensei, não me vi nascer, nem sei ao certo a data em que foi expurgado e lançado a este mundo – só o sei porque o tabelião, ao assinar uma fresta de papel, alcunhou uma abstrata data qualquer, e como minha mãe sofria de certa intermitência na memória, jamais saberei ao certo minha data de nascimento - agora me pregam tamanha peça, não posso ver e nem, muito menos, saber a causa de minha morte. Mas, talvez, a última coisa que saberemos nesse mundo é o motivo de nossa morte, ou não. Talvez, aquele ainda não fosse o momento. Sabendo que não encontraria resposta, voltei ao velório, estava impaciente para ver a cova, minha breve e negra morada, até a voraz corrupção de toda minha face material. Novamente percebi as pessoas, como já disse, eram poucas, às vezes entrava um e outro, algum curioso que transitava na rua ou algum outro sem compromisso, mas, definitivamente, os presentes fixos eram poucos. Enfim, deu-se o fim, é fácil e perceptível reconhecer o clima instintivo que exala dos olhos humanos. Observei um profundo desatar de suspiros, olhares caridosos e, por fim, o coveiro lançar mão àquilo que dava tampa ao caixão. Quando fecharam o caixão, senti que algo em mim não estava em seu perfeito estado, como os intestinos, os pulmões, as vísceras, e todos os demais sistemas. Já a partir daí não consigo lembrar mais nada, justamente o momento em que eu tanto almejava presenciar, o sepultamento. Já não me recordo, nem sei se o houve. Na verdade, nem mesmo sabia se eu estava morto, ou sonhando, só o sabia porque me vi num caixão e na tradicional posição decúbito dorsal. E o sonho acabou juntamente com o fechamento do caixão.
Ao amanhecer, despertei com um pouco de enxaqueca e sem saber onde havia colocado meus óculos.
domingo, 31 de julho de 2011
Notáveis foguetes

[Eduardo Galeano / Entrevista ao programa "Sangue Latino"]
domingo, 10 de julho de 2011
Ser (1)
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Atenção! Uma Pessoa irá falar.

