sábado, 14 de abril de 2012

Mais Um

É bem um drama o que vivi, ou vivo (?). Daí minha inclinação por heroínas trágicas e, também, uma forte propensão ao suicídio. Mas, a morte, neste instante, não me atrai em nada. Se a vida já não me basta, a morte muito menos. As convenções que se criaram ao longo do tempo, de nada valem. Às vezes, deitado em meu catre, em noites que se apresentam tão tristes quanto minhas sessões de psicanálise, tenho a impressão de estar morto. De olhos abertos, cravados no simples lustre do alojamento, morro de olhos estarrecidos. Meio que encarando uma platéia atônita, o espetáculo da vida. Mas, isso não vem à nota. Meu objetivo é contar-vos um caso curioso que passei há pouco, e até o presente momento me comove e entristece.

Já sei que, há muito, de nada me agrada a vida. Um transparente e fantasmagórico véu misantrópico se enrola por sobre meu pobre existir. Como disse, nada me surpreende nada, e não acredito que a morte seja uma sapiente alternativa. O que vejo, neste caso, são outros meios de sair deste marasmo. Gostaria de provar e testar de cada coisa um pouco, para, assim, descobrir o que de real me satisfaz. Se me fosse possível, seguiria os passos de Alonso Quijano e me declararia louco, sairia feito o Quixote por entre as veredas dos Pirineus a procura de uma ilha desconhecida. Mas, a loucura é um preço que não estou disposto a pagar. É bem certo que a lógica de nosso insano planeta está direcionada para um tipo de viver sistematizado em valores, tudo o que desejamos fazer é um preço que devemos pagar. Buscaria e faria peripécias por uma nova aventura, ou, se não tivesse solução, viveria novamente.

O ocorrido. Creio que minha deplorável condição de homem não me impede de acreditar em Deus e, também, no Diabo. Muitos acreditam num Senhor supremo e Nele confiam suas angustias e males. Mas, no Diabo, não confiam e não duvidam. Cansado de procurar por Deus e não o encontrar, procurei o Diabo. E, como todo bom homem político, nunca o encontrava. A procura durou uns trinta dias ou uma quarentena inteira, mas ao fim, também, nada! Coitado de mim. Já não era típico, e nem de meu costume, negar ou afirmar a existência de alguma coisa. Vivia por mera questão do viver.

Certa noite, deitado em meu catre no alojamento, ouvi certos ruídos no limiar da porta. Logo, de súbito, apavorei-me com “Ulisses” por sobre o peito. Aproximei-me uns passos da porta e logo avistei pelo olhar mágico um vulto. Pareciam curvas verticais de um sujeito. E eram. O Diabo bateu-me a porta. Mas, caros amigos, em vossas cabeças, vejo, zumbem latidos de inquietação: como descobri que era o Diabo propriamente? Não era preciso descobrir, de logo e repentinamente se apercebia. Via-se em seu semblante um par de olhos humanos, como outro qualquer. Logo, o Diabo quis chá. Fui à cozinha, correndo, e trouxe chá. Após, travamos conversa.

Diabo: O que queres?

Eu: Quero algo a mais. Quero mais que a vida e a morte.

Diabo: Achas mesmo que conseguiria eu, um anjo caído, proporcionar-te certo desejo?

Eu: Sim. Já viveste nos céus e nas fossas. Já viste anjos e já viste querubins; presenciaste o mais pobre e o mais fétido do desejo humano; sabes bem onde se encontra a terrível e pestilenta necrose que aflinge toda a humanidade. Por isso, acho que consegues.

Diabo: Certo. Especifique.

Eu: Com cem mil consigo.

Diabo: Ah, é dinheiro. Suspeitei. Não pedes pouco, não é mesmo?

Eu: Achas?

Diabo: Sim. Por uma alma, sim. Hoje, caro jovem, recebo indiscriminadamente tantas almas que já não me vale à pena pagar por nehnuma outra. Recebo-as inteiramente de graça. É como se caíssem dos céus. Como chuva, entende? Não uso mais desses negócios. Hoje, não negocio mais nada, nem alma.

Eu: Compreendo. (Ar de extrema frustração e desespero. Já sabia que minha alma não valia nada para Deus, e, no exato momento, acabava de descobrir que também não valia nada para o Diabo).

Diabo: Mas, como gostei de ti, simpatizei com tua branca e miúda cara, vou oferecer-te algo. Ofereço-te treze mil. Então?

Eu: E... u... Eu... Aceito!

terça-feira, 10 de abril de 2012

Eu, Crime e Castigo


Falar sobre a literatura de Dostoievski é tratar sobre o que há de mais intenso e perturbador que há na alma humana.

É um ótimo ponto de partida para tratar deste livro que, sem exageros, considero o mais genial que já li. Bom, confesso que esse tipo de afirmação é muito reducionista, pois, seguramente, e pondo em relevância meu incipiente contato com a literatura, virão outros livros, outras leituras e outros escritores que se afirmarão mais geniais que este, ou que se equipararão a este. Não é fácil organizar todo o emaranhado psicológico de Crime e Castigo, porque é um livro chocante e, como disse de início, perturbador.

Sempre mantive muito interesse pela literatura russa. São aqueles tipos de leituras que lemos antes mesmo de pegarmos o livro e nos embrenharmos por suas páginas. É uma espécie de leitura do ouvido. Você ouve as pessoas falarem bem, elogiarem os grandes mestres russos por suas habilidades ficcionais e estilísticas, e, de tanto ouvir, você, de certa forma, se familiariza. Mas não é disso que venho tratar precisamente.

Depois de certo tempo, e justamente adquiri o livro por essas boas recomendações que sempre ouvi, resolvi lançar mão à pequena e volumosa edição de bolso que eu já havia comprado há um tempinho.

E pronto, começa a tortura, uma tortura necessária, digamos. Ao longo da leitura, estive em dúvidas se era eu ou Raskolnivov quem realmente sofria de alucinações e perturbações no espírito. Isso me faz crer que o modo como Dostoiévski opera toda a trama, o "jeito" com que ele escrevia, propriamente, torna o livro ainda mais genial. Escavando cada detalhe da alma, ou daquilo que se acredita ser a alma.

Crime e Castigo despertou em mim uma ânsia inaudita, um parto, uma expiação de uma culpa que, nem mesmo, sabia se existia (ou existia somente dentro do universo da narrativa, e acabei transpondo essa complexidade para a realidade. É algo a ser pensado). Essa é, a que considero, toda a habilidade de Dostoiévski. De forma que o leitor, colocando-se no lugar do narrador, acaba por se tornar quem fala sobre a trama, mas não só descreve, enumerando fatos e intercalando acontecimentos, mas quem sente, quem toca e passa. A leitura foi demorada, longa, conflituosa. Passava dias digerindo. Lia dez, vinte, trinta páginas... e sentia a necessidade de abandonar o livro por um tempo. Deixava-o abandonado, nem mesmo conseguia olhar para capa; sentia-me com “depressão pós-parto”, porque cada dezena de páginas que eu lia, era um parto. Mas, logo, voltava com fervor às pequenas páginas. A fluência da narrativa, a difícil digestão... Os diálogos inesquecíveis entre o assassino e o comissário de polícia. O desespero de uma alma e suas pressões externas.

Chego ao fim. Chego ao fim com uma sensação de querer mais sofrimento e mais castigo e mais dor e mais aflição... a idéia que Dostoievski nos transmite ao fim do livro, da possível recuperação e expiação do criminoso é o que me provocou maior inquietação. Um enigma. Crime e Castigo parece-me uma narrativa eterna (ou o é), e continuará, por via de seus leitores que sentiram Raskolnikov dentro de si, a tecer novos pequenos diálogos em suas almas, em suas consciências, materializando em seus cotidianos cada personagem, cada ação e cada ponto de efervescência. De resto, calo-me. Porque é o melhor a ser feito por agora. E é um dos direitos imprescindíveis de um leitor. Mas isso não é porque, ao fim da resenha, pretendo desmistificar alguma coisa, não, quero dizer que, precisamente, esse livro não é um livro de conversas, um livro fácil que nos serve para puxar um assunto e discorrer sobre algum fato corriqueiro. É algo de misterioso.

Mas confesso que sofri junto de Raskolnikov. Ou, na melhor das hipóteses, rachei a cabeça de uma velha.

terça-feira, 3 de abril de 2012

O Sonho Repetido

Levei eu três noites e três dias para me livrar deste sonho maldito. Não se pode sonhar o mesmo sonho por mais de duas vezes, isto é mentira. Por uma semana inteira sonhei o mesmo sonho, as mesmas repetições de rostos sem nomes, de vidas sem almas, de noites gritantes. Passava-se sempre no mesmo lugar, na mesma hora e com os mesmos personagens. Devem-se evitar, aqui, neste momento, certos detalhes do sonho, ao passo que o pobre escritor correrá o risco de enlouquecer, se não já estiver louco. Perdi noites, cravaram-me olheiras, psicoses, e não me libertei. Hoje estou livre, ao ponto de conseguir voltar e urdir este relato, que se aproximará o máximo da realidade, ou da realidade de minha memória, o que daria no mesmo.

Meus inimigos me detestam por eu ser quem sou. Mas eu não sei, certamente, quem eu sou, porque estou dentro de quem sou. Creio que só se sabe, efetivamente, quem se é, quando se está fora daquilo que se é. Logo, presumo que meus inimigos saibam, e disto evitam falar, quem sou realmente. O que vejo no espelho é apenas um deplorável castelo de pele e, mais recentemente, rugas. A prata, salpicada por meus fios de cabelos, já se mostra tão reluzente como a marca do juízo. Se não sou um amontoado de sonhos, sou um perambulo, um sonâmbulo da morte.

Quando sonhei o sonho pela primeira vez, não dei a mínima importância. Era apenas, pensei, mais uma forma da morte fazer uso de sua indizível face.

Numa capela ao largo de uma colina, desencadeava-se um velório. Até aqui, nada demais, velórios são eventos típicos dos meus sonhos. Poderia eu, caso tivesse uma veia e interesses por essas novas teorias que se vêem por aí, fundar uma empresa especializada em organizar eventos fúnebres. Acredito que minha memória daria para um ótimo catálogo de visitas.

Subindo uma pequena rampa, almofadada de folhas velhas e secas, deparei-me com um pequeno caixão, um caixão branco. Supostamente o branco representa e é portador da pureza e castidade, mas nunca se sabe, nem saberá quem realmente estava posto naquele lugar. Uma criança? Uma virgem? Não sei, e tive medo que abrissem a tampa e mostrassem o terrível corpo.

No recinto não havia mais pessoas senão um grupo de Freiras e um vigário. Não falavam, nada diziam. Quando perceberam minha presença, não souberam agir de outra forma senão com desprezo. É certo que tenho o dom de não existir em certas ocasiões, ou de não ser visto, o que, novamente, daria no mesmo. Quando pensei no que realmente significava minha presença naquele lugar e naquele evento, desencadeou-se um canto. Lá fora se ouvia gritos, apesar de dentro da capela não se ter ouvido um arranhão se quer. Do lado de fora um sujeito gritava que a morte é o fato mais nulo que pode acontecer a um homem. Dizia que se suicidaria para tratar sem ranços de sua tese. Não pensei que esse homem personificava algum de meus inimigos, por serem tão cheios de verdade e não menos numerosos.

Meu caro e simples leitor pode, neste instante, reparar que repito muitas idéias de outros relatos que escrevi. Mas, minha vida é uma condição insistente de repetições de temas e plágios. Plagiei-me por incapacidade e por falta de criatividade. É necessário, assim como é necessário esquecer.

Muito me sufocava o clima da instigante capela. Um odor de cera derretida penetrava pelo recinto de forma desesperadora. Chamuscadas de imagens fantasmagóricas, as paredes aparentavam não receber pintura há tempos. Muito abandonado estava o local, assim como o caixão e, provavelmente, o corpo. Intrigava-me, de fato, pensar se realmente havia um corpo ali, uma vez que o caixão não fora aberto em momento algum. Se posso supor que tudo não passava de um simulacro, tenho a certeza que minha mente é uma péssima máquina de repetir coisas e reproduzir a realidade. Eu não tenho certeza se as freiras permitiam minha presença, pois, em momento algum, olharam-me à face. O vigário, encurvado por sobre um velho livro a rabiscar traços inconciliáveis, murmurava alguma coisa.

E assim o sonho se repetia. Nada de além acontecia. Sempre acabava comigo ao pé de uma árvore de frutos desconhecidos. E o caixão permanecia imaculado, inviolável. Uma incógnita nesta sucessiva repetição de sonhos.

Levei mais um tempo para perceber que no caixão estava depositada toda a minha memória, dos tempos de meus antepassados do mar aos que hoje não abrem mão de tudo o que sabem. Para povoar o tempo, resolvi passar as três noites e os três dias lembrando a ordem e o número dos sonhos. A precisão é algo que não se pode conquistar sendo um simples ser humano, por isso, resolvi apenas consultar um brutal dicionário, o qual dizia: memória = nome.

terça-feira, 20 de março de 2012

À Sombra do Cipreste


Hoje somos inimigos, porém inimigos não convencionais. Sabemos muito bem que nos odiamos por meio de uma fúria indizível, assim mesmo como os verdadeiros inimigos se odeiam. Escrevo-te esta carta não para implorar uma reconciliação, mas sim para dizer que sonhei contigo noite passada.
Como já sabes, é habitual minha perseguição por sonhos ininteligíveis e fantasmagóricos. Meu viço pela morte está presente desde o berço. A morte usa-me incessantemente, até o ponto de me forçar a escrever para meu próprio e maior inimigo.
Creio que eu estava a ler algum livro naquela noite fria. Entrou pelo portão principal sem ao menos desencadear um mínimo ruído se quer. Quando dei por mim, senti um gélido ar a correr pela espinha, no entanto, não percebi que a morte já se encontrava em minha sala de estar. Não senti medo, e nem o medo de sentir medo.
Decidi, então, olhar o que estava a ocorrer no cômodo próximo. Assim, notei que estavas sentado na poltrona que foi de meu pai. Repentinamente, disse-me: “estou a te esperar há um tempo, agora é que ouviu os barulhos da porta?” Respondi, “Não, ouvi há um bom tempo, mas resolvi manter guarda, pensei ser um desses cachorros vadios a entrar pela casa a procura de lixo.” Olhava-me com um olhar ardente, uma negra felicidade rondava teu semblante, algo estava a acontecer dentro daquela casa, era um prelúdio para a morte.
Quando então decidi oferecer algo para beber, disse-me: “siga-me, precisamos resolver nosso antigo caso, meu ódio por ti e por tuas infâmias ainda não se aquietaram em meu coração. Morro a cada dia pensando no que foi nossa amizade e por aquilo que a desnutriu e a enfraqueceu até seu último suspiro.” Pensei nessas últimas palavras com muita condescendência, e sem pestanejar ou a me exaltar, disse: “Não, quem foi o pai da mentira, que nossa amizade enterrou? Não podes pôr a culpa em mim. Um sujeito sabe que tem um amigo até o dia em que há um desacordo. Se não somos capazes de superar as desavenças, acaba-se! Mas, o que é a vida, senão uma sistemática sucessão de desentendimentos?”
“Chega!”, disse-me, “não tente mais embromar com tais argumentos, tua hora chegou.” Não respondi, e nem mesmo revidei, aceitei meu destino, pois com o acaso não se pode brigar. “Escolha algo para levar junto a ti, qualquer objeto ou coisa.” Neste instante notei que as paredes se abriam para um vão negro, e as prateleiras pululavam por meio de um tremor proveniente dos móveis. Uma dúvida infatigável corria-me às artérias, o sangue, quente como a lava de um vulcão, já estava a queimar as vísceras. Pensei na Bíblia, mas senti que a infâmia do momento não merecia a escolha de tal livro. Assim, passei as pontas dos dedos por entre a primeira prateleira que avistei, e me saiu uma edição da coletânea de diálogos de Jorge Luis Borges.
“Pronto”, disse eu. “Podemos ir”. Entramos pela pequena rua que confluía com minha casa, pensei que fôssemos em direção ao pequeno córrego, mas seguimos adiante. Uma velha e cansada carruagem nos esperava. Adentramos, e percebi que o cocheiro sabia de tudo, senti em seus olhos uma espécie de piedade ou gratidão. Tentei desviar o olhar daquele sujeito, concluí que eu não merecia tamanha misericórdia, nem divina, nem humana. Passados trinta minutos de lentidão, chegamos a um lugar de aspecto extremamente bucólico. Enfim, “a sombra do cipreste pôde abraçar o cipreste”. Paramos por debaixo de uma lustrosa árvore. Os raios da lua, ou os falsos raios da lua, refletiam sobre as folhas uma luz clara e ao mesmo tempo espoliante, escondendo outro detalhe que agora me é roubado pelo despertar. Em cada folha se escondia um rosto. Neste instante percebi o quanto os efeitos do tempo haviam roubado aquela suntuosa altivez dos teus olhos. Dos tempos em que éramos confidentes, nada restou daquela misteriosa vontade de ser alegre.
Agarrei-me ao pequeno livro que levava às mãos, e dei conta que, no exato instante, encontrava-me descalço. A saída de minha casa foi tão repentina e com ares de desapego, que me esqueci de vestir os pés. Senti, em minhas narinas, uma ácida e úmida bruma. Meus pés, molhados pelo orvalho da grama, sentiam o mesmo frio que minhas costas ao contato com o aço.

Agora, olhando ao redor desse pesadelo, reflito sobre minha angústia em cair no abismo do sono novamente. Ao acordar, percebi que estava em falta na minha estante o primeiro volume da coleção de diálogos do Borges. Sei, e isso não me é assustador, que tu e meu livro, presos em meu pesadelo, seguirão por entre as ruas que não se vêem, a falsa luz da lua e o cipreste com seus monstruosos galhos, descobrindo o horror de um grande esforço que jamais poderá nos salvar.

sexta-feira, 9 de março de 2012

A morte para leigos

[Forma de expurgar o vazio da morte, escrevendo]

Nunca me inclinaria a escrever sobre a morte. A morte é algo que está para além do meu entendimento. Mas, como toda experiência de vida, podemos tirar algum aprendizado, mesmo que nada seja dado de absoluto. Aqui estou. Seis anos depois de sua partida. Dedico-te esta carta não por mero capricho, para dizer que: estou aqui, olha bem, sei escrever. Não. Nem sei escrever, e nem sei ao certo o que estou a escrever. Procuro escrever para tentar entender, e também porque não há nada de mais interessante para se fazer neste momento.

Bom, procuro, com estas pobres palavras, dizer o que representa a morte para minha pessoa. Esta falsa aparência que nos costuma ser a morte, nada mais é que uma ladra. Eu sei, sei, que rogar pelo aniquilamento da morte é rogar para uma vida eterna e pela imortalidade, o que, também, eu não suportaria. Pelas voltas que o mundo anda a dar, não vale a pena ser imortal. Mas, em verdade, gostaria que a morte fosse menos abusiva ou menos indecente. Como pode uma força, um raio de uma força metafísica nos roubar uma pessoa, assim, do nada? Sinceramente, esperava mais da natureza, se, como dizem, fosse tão perfeita como se apresenta, deveria nos dar uma explicação mais plausível para o fenômeno da morte. Muitos, e acredito serem menos numerosos do que tolos, tentam desvendar, mas, sem dúvidas, não conseguirão, porque a morte brinca-vos à cara!

Outro grande absurdo da morte é a mania iconoclasta do ser humano em sepultar corpos já sem sentidos próprios, e em mantê-los em pequenos castelos de tijolos e areia. Quer algo de mais horroroso que um cemitério? Não seria muito mais asséptico se todos fôssemos reduzidos à cinzas quando morrêssemos? Quanto trabalho pouparíamos a natureza. Bem, pensando, os vermes e baratas e minhocas necessitam de alimento, mas, acredito que deve haver outras formas melhores de se alimentar senão com carne humana. Acabaríamos de vez com todo esse espetáculo que é um velório e um sepultamento. É, nada mais, uma forma de prolongar todo o sofrimento de quem resta em vida. Bom para os “convidados”, porque, duvido, para os familiares do morto não há nenhuma forma de prazer! Mas esta é uma das grandes formas do ser humano se mostrar hipócrita e inútil. Não há melhor forma de ser conhecido e ter fama do que sendo um morto! Ninguém tem inveja de um morto, porque ninguém quer ser um morto. Por isso, fulano vira santo, depois que morre, fulano era tão simpático, depois que morre, fulano era uma pessoa excepcional, depois que morre. Quanta repugnância! Não conheço todos os mortos do mundo, e por isso não posso afirmar se todos foram santos, e nem, por outro lado, que também não foram.

Eu fiz o que pude para tentar esquecer sua breve presença neste mundo. Mas você foi como a varíola, tive quando criança e nunca mais consegui me livrar das pequenas chagas. As vezes, para tentar amenizar todo o buraco que se abriu na minha vida, penso que você está longe, num longo período de férias e descanso, é o que todos procuram pensar nos primeiros dias. A idéia de sempre ter-te visto com uma vassoura pelas mãos, a deslizar pelos cômodos da casa, reforça esta minha idéia de repouso. Trabalhas-te por demais em vida, merece, de certa forma, descanso.
Quanto a mim, penso que morrerei de repente, num rompante. Talvez, quando descobrirem esta nota, posso morrer, ou, até mesmo, antes de a descobrirem. E muitos dirão, nossa, viu? Foi brincar com a morte e acabou dando no que deu! Bando de inúteis! Outra grande e prodigiosa façanha da morte: provocar um rebuliço lingüístico por entre as pessoas. Principalmente se o motivo da morte não ficar claro. Aí, será um alvo facílimo para especulações. De que importa? Morreu, pronto e acabou! Ninguém precisa saber o motivo, claro, a não ser naquelas situações onde a morte se deu por via de um assassínio, mas isto pertence só às autoridades e família do dito cujo, não necessita ser foco de investigação popular. Vai, bando de abutres, cuidar de suas próprias mortes! Morrer deveria ser libertação. Mas, no que vejo, está mais para uma prisão, onde a imagem da pessoa morta, fica, ora por motivo de adulação, ora por motivos de ódio e ranços. E só para não dizer que falei pouco de mim, digo que sofri e sofro até os dias de hoje, e continuarei sofrendo pelos dias que me restarem. Muitos dizem que mal a enterrei e já estou completamente recuperado, por mais estranha que possa me parecer esta palavra, recuperação. O silencio é o ato mais incompreendido de todo o mundo. E aí está, outra grande força que a morte exerce sobre nós, o silêncio. E por isso que o luto está interligado ao silêncio. Não há palavra após a morte, não há até se aperceber que a vida continua acontecendo. Foi a única lição tirada por mim em todo este episódio. A vida do homem está traçada em linha reta, quando esta linha acaba, acaba e ponto. O que está por fora de nós, a natureza, as plantas, as estações, o universo, são um conjunto de vivências cíclicas, que se renovam e se reinventam a cada período. Por isso, nos é caro tal entendimento. Para nós, é uma vez para nunca mais!
Chega! Já estou a me repetir por demais. Eu queria escrever algo muito diferente do que escrevi, mas agora não quero voltar atrás e apagar tudo e reescrever. Por fim, ainda estou a espera que a humanidade ou, por milagre, alguém possa decifrar esta ordem que está posta dentro de todo o caos de nossas vidas, que chamamos de morte.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Oito de agosto, 2025

Num pequeno café, que abarcava três cômodos do quarteirão, deparei-me com um velho amigo, K. Com um olhar meio distraído, perguntou-me:
“- Como tem passado, Jacob?”
“- Indo, como de costume. O que posso dizer? Além da sucessão de desgraças das quais já estou acostumado, os labirintos, os livros sem letras... Nada disso é novo.”
“- O que houve? Especifique.”
“- Ah, não sei se foi sonho, talvez fosse um pequeno inferno, um inferno pessoal, creio. Tenho lá minhas dúvidas se, fosse minha cabeça um teatro, ela não teria especialidade em produzir peças trágicas.”
“- Sim. Quer dizer que tiveste um sonho noite passada?”
“- É, propriamente. Deixe ver. Talvez seja o suicídio um descuido pessoal. Talvez seja por isso que tenho passado. Descuidos. Minha vida está, atualmente, perpetrada por descuidos. Mas, com paciência, relato o ocorrido.

Estava eu a vagar por entre as ruelas da cidade. Não sabia meu paradeiro, não sabia em que rua estava, mas a única evidência era um pedaço de papel que trazia à mão, indicando uma espécie de reserva num tímido hotel ao fundo da estação ferroviária. Chegando a recepção, dei com uma secretária de aspecto mórbido e insolente. Com um gesto mecânico, apontou para o caderno de reservas onde eu deveria assinar para confirmar a hospedagem. Aí, meu caro, inicia todo o jogo labiríntico pelo qual passei nessa infundada noite. Quando firmei a caneta por sobre a superfície da agenda, percebi que meu nome já constava ali; e, pasme, com minha própria grafia. Um pouco trêmula, confesso, mas, senti que os indizíveis traços, de certa forma, pertenciam-me. Por isso, digo, nunca saberei se isso se passou dentro de um jogo de sonhos. Talvez eu já houvesse sonhado aquela situação em alguma outra noite de junho, mas, seguramente, não saberei. Até o momento, alguma coisa se moveu dentro do meu peito. O coração por sair pelo esôfago? Talvez. Mas senti que era algo mais sério, pensei: alguém se passou por mim, ou eu, no exato momento, estaria usurpando o lugar de alguém, interceptando algum outro sonho qualquer? A respeito, conjecturei sobre o que meus difamadores, que não são poucos e menos patéticos que eu, acham de mim, que sou um impostor - o que, agora, não é impossível de ser uma verdade. Então, fingi passar a caneta pelos traços já rabiscados no caderno, e devolvi o tinteiro à secretária, que, com a língua presa aos dentes, disse, “quarto 22”. Era o que eu temia. Parecia que algo em meu íntimo rogava a Deus, a um indeterminado Deus, a qualquer Deus que não fosse aquele o número do quarto. Subi as escadarias. Afoito, percebi que o recinto já se encontrava ocupado. Adentrei, cauteloso, e vi um alguém sentado a cama, de fronte para a porta central. Resignado, olhando em sua face um pouco cansada, um pouco pálida, disse: "lembro-me de rostos do ocidente e do oriente, mas não estabeleço relação com esta cara cansada." Infausta servidão! Era eu. Um pouco pálido, um pouco mais velho. Eu. Depois, ao notar minha chegada ao alpendre, virou em minha direção e disse: "Tudo isto é um delírio?" Eu, contemplando novamente sua face, não disse nada por um longo tempo. “Não tenha medo, Jacob, eu sou você e você é eu, porém apenas com certa disfunção de tempo, mas somos nós. Três noites tenho caminhado para entrar em teus sonhos. Gostaria de conversar, por isso estou aqui. Primeiramente, na verdade, isto não é um sonho. Estamos em 8 de agosto de 2025. É certo que não consigo entender, neste momento eu, acordado, sou você, e você dorme tranqüila e profundamente em sua casa na rua Pisco. Por sinal, não sou apenas um sonho dentro de um sonho, sou tua consciência dentro da realidade”. Observava o quarto como naquelas tardes de domingo quando minha vida se apresentava tão triste quanto uma seção de psicanálise. Sentava-se, levantava-se. Não sabia se interpor por entre os móveis. Logo, numa ruptura, disse. “Não poderás calcular o efêmero em sua vida. És mais intermitente que um trem, ou melhor, até mesmo os trens têm pontos fixos e lugares precisos.” Parecia-me que estava pondo a si mesmo à prova. Depois de certo tempo, já não conseguindo segurar as pernas, escorei-me à cama e repousei no primeiro assento. Olhando pela vidraça, o jardim esfumaçado pela neblina, ele disse em voz lenta, como se estivesse a repetir trechos ontológicos de Shakespeare e parábolas messiânicas: “não direi nada a respeito, que os mortos enterrem seus mortos. Não tenhas medo, Jacob, isto não é uma culpa pessoal, ponha-a em qualquer fato corriqueiro e cotidiano. Não é preciso ser Borges para se encontrar dentro de uma sucessiva e fantástica interposição de espelhos.” Da janela encravada ao lado direito do quarto, vi uma sombra fantasmagórica e irregular atravessar as cortinas de seda. Um grito interno incorreu-me, abafado e incrustado dentro de meu estômago. Senti que também morria. Quanto mais se afastava, mais sentia-me incorpóreo. Minha pele, infértil de todo e qualquer sentido, não mais suportava a doce pluma da morte. Não vi nada, a neblina invadiu todo o quarto e, no mesmo instante, o mesmo se pôs a rodopiar e girar de forma que eu não conseguia estabelecer uma órbita permanente. Após, ergui a cabeça em direção a porta, olhei por entre o vão e estava ali, à espera que eu dissesse algo. “É deplorável que tenhas uma vida descolorida e igual, como a palma de uma mão. Não procure torná-la menos suportável, Jacob. A morte usa-te constantemente." Numa rajada de segundo, ele desapareceu. Ao sair do hotel, olhei em direção ao velho e deteriorado chafariz do pátio principal. Nada me aturdia. Senti, no ato, que muitos outros sonhos esperavam-me até aquele dia.

Acaba-se aqui o sonho. Veja só, coisa mais estranha, K.”

“- Pois sim, amigo. Muito estranha, e, arriscaria dizer, como todos os sonhos, fantástico!”

“- K, poderia eu arriscar em dizer que meu suicídio se dará em 8 de agosto de 2025?”

“- Quem saberá, Jacob? Creio que nem mesmo tu saberás. É só um sonho. Quer saber? Marcamos uma partida de pôquer à noite?”

“- Claro. Se trouxeres vinho..."

“- Combinado.”

domingo, 1 de janeiro de 2012

Madame Bovary c'est nous


Finalmente consigo aqui postar mais uma resenha. Esta, por sinal, é bem particular, e pelo próprio título já pode se deduzir de qual livro se trata. Exatamente, Madame Bovary.

Bom, finalizei a leitura há uns dias atrás, porém fiquei todo esse tempo pensando a respeito do que escrever, do que dizer sobre essa revolução. Não é bem um exagero, mas Madame Bovary pode ser considerado um livro revolucionário em minha vida. Sabe aquele tipo de leitura em que ao findar a última página, ficamos com o livro por sobre as mãos durante um bom tempo para pensarmos e tentarmos nos recompor? Foi isso o que me ocorreu.

Durante esses dias, andei pela internet procurando algo que abrisse meus caminhos, que amarrasse alguma questão significativa (pois todas são), que pudesse indicar algo de relevante a dizer em relação ao livro. Percebi, por se tratar de um livro centenário, de um clássico, que há inúmeros pareceres e resenhas circulando por aqui. O livro já foi alvo de vários estudos da literatura, da sociologia e, até mesmo, da inquieta psicanálise. Depois, fui percebendo que não devia buscar nada exterior, que se tratando de uma obra como essa, o que devemos fazer é buscar algo de particular, algo que nos tenha comovido (difícil até, pois o livro é um turbilhão de comoções), enfim. Pensei, pensei... E concluí exatamente isso.

Primeiro é preciso olhar para os personagens. Cada um representa o que temos de melhor e pior. É aquele tipo de história, acredito por se tratar do realismo, que não há vilões e nem mocinhas. Cada um representa o que bem somos e como nos portamos na sociedade e nos meios em que circulamos. A ingenuidade de Ema (personagem principal), seus sonhos, seus acessos de loucura e psicose, pode muito bem retratar a todos. É impossível não se identificar com alguma particularidade da vivência de Ema, com algum aspecto ou detalhe de seus comportamentos e exageros.

Não é de hoje que ouço falar de Madame Bovary como um grande clássico da literatura; adaptação cinematográfica; sobre a destreza de Flaubert, sua escrita pontual, o encaixe perfeito de palavras. Agora faz muito sentido, após a leitura, o que Jorge Luis Borges, em um de seus diálogos, disse sobre Flaubert. Segundo Borges, para o escritor Francês, era possível se encontrar no mundo um dicionário perfeito, onde, para cada situação, há uma palavra para se encaixar e definir. E isso fica muito evidente em Madame Bovary. Porque a sutileza vocabular de Flaubert impressiona e encanta. Mas, por outro lado, nada que atrapalhe ou deixe a leitura chata, muito pelo contrário.

Somente após entrar em contato direto com o livro é que podemos saber o que é, realmente, todo o universo de Flaubert. Ainda nos paira múltiplas perguntas pela cabeça. Como um homem em pleno século XIX conseguiu escrever e detalhar tão bem os anseios de uma mulher? Segundo o que andei lendo, Flaubert se inspirou numa paixão que manteve por uma mulher mais velha e casada. Talvez, pelos modos de uma época onde a moral cristã era tão bem preservada (tanto é que o livro e o próprio Flaubert foram alvos de um processo judicial) fez com que o escritor se tornasse sua própria Ema, seus desejos, suas vontades, seus pensamentos castrados pela barreira dos padrões comportamentais. Daí fica evidente que a liberdade de um, depende da liberdade do outro. E essa liberdade é uma possibilidade.

Regressando aos personagens, como já havia dito anteriormente, é impossível não se identificar. Durante todo o livro mantive afeição por Carlos, marido de Ema. Sempre me pareceu um bom homem, educado, sempre disposto a amar e ajudar Ema nos momentos de maiores tensões. Porém, cai, como grande parte dos personagens, na ingenuidade. Apesar de todas as qualidades, Carlos era muito ingênuo, muito "mocinho" para Ema. Ema sempre foi acima de seu tempo e espaço; Ema sabia o que não queria, mas não sabia o que queria. Amantes, viagens para Ruão, a compulsão por comprar, retratando muito bem os exageros femininos cometidos por grande parte das mulheres contemporâneas. Além de tudo, Ema também se torna ingênua ao longo da história. Não fica bastante explicito na obra, mas é perceptível que Ema sofre de algum distúrbio mental, de ordem psicológica (daí surge o interesse da psicanálise por sobre a obra, inaugurando até uma nova patologia para Ema, o bovarismo), tanto é que podemos ratificar essa questão no momento em que, não encontrando nenhuma alternativa para os problemas dos quais se afundou,a anti-heroína decide pelo suicídio (um dos momentos mais fortes da história). Seus acessos, seus sonhos exacerbados; Ema possuía uma grande dificuldade de relacionar seus sonhos e desejos com a realidade em que vivia.

E por fim, a característica que mais me aproximou de Ema. Pois eu também vivo numa província. O quão difícil é por em ordem nossos desejos por conta de um lugar pequeno. Pensar de acordo com os padrões estabelecidos, e não ter alternativa ou perspectivas de mudanças...

Ainda sigo na luta para encontrar o DVD da adaptação cinematográfica de Madame Bovary, mesmo que seja para download. Não vou desistir.

E como é de tradição, segue abaixo alguns trechos do livro, que se tornaram significativos para mim.

“Um homem não devia, ao contrário, primar em múltiplas atividades, saber iniciar a mulher nos embates da paixão, nos requintes da vida, enfim, em todos os mistérios? Mas aquele não ensinava, nada sabia, nada desejava. Supunha-se feliz; e ela não lhe podia perdoar aquela tranqüilidade tão bem assente, aquela gravidade serena, nem a própria felicidade que ele dava.”

“Ela não podia acreditar que as coisas pudessem surgir sempre iguais em lugares diferentes; e, uma vez que a parte já vivida fora má, tinha esperanças de que a que lhe restava viver havia de ser melhor.”

“Quanto a Ema, não se interrogava para saber se o amava. O amor, no seu entender, devia surgir de repente, com ruídos e fulgurações, tempestade dos céus que cai sobre a vida e a revolve, arranca as vontades como folhas e arrebata para o abismo do coração inteiro.”

“O dia seguinte foi para Ema um dia sombrio. Tudo lhe parecia envolto em uma negra atmosfera que pairava confusamente sobre as coisas, como o bento de inverno nos castelos abandonados. Era o devaneio do que não voltaria mais, a lassidão que nos toma depois de cada fato consumado, a dor, enfim, que nos traz a interrupção de todo o movimento habitual, a cessação brusca duma vibração prolongada.”