quinta-feira, 4 de outubro de 2012

De repente, leitor


Esta é uma tentativa de reunir idéias gerais sobre a leitura. Baseia-se em fragmentos de discussões que participei em diversas oportunidades. Tentarei sintetizar, de acordo com inquietações pessoais, alguns pontos sobre o tão caloroso tema, formação de leitores. Bem, posso, por vezes, cair em contradição, mas acredito que tenho indulgencias suficientes, pois sei que trato de um tema tão delicado, que nem mesmo a experiência poderia bater um martelo e nos dar uma posição segura e correta. Isto, apenas, se trata a mim, tudo o que vejo, tudo o que penso, brotou unicamente das minhas experiências como leitor, do meu amor aos livros. Se assim estamos acordados, espero dar procedimento.
 A primeira coisa que gostaria de tratar, e tem se propalado feito uma epidemia pela mídia, é o que, não só eu, mas outros interessados pelo tema, chamo de "moralização da leitura". Algo completamente estúpido, e está fortemente sendo impulsionada pelas campanhas de "incentivo”. Primeiramente, é inconcebível essa ideia de "incentivo a leitura". Leitura é uma construção, é algo que só pode dar por via de uma escada, degrau por degrau. Assim como “não podemos nos livrar de um hábito atirando-o pela janela”, também não podemos incorporar nenhuma prática bruscamente, nem mesmo por meio de boa vontade ou “voluntarismos”, necessariamente. Ninguém nasce sabendo ler, ninguém nasce, se quer, sabendo de si mesmo, tendo compreensão plena de sua existência no mundo. Tudo é uma construção, e com a leitura não é diferente. Essa ideia do incentivo é apenas uma estratégia dos pedantes a provocar uma espécie de "apartheid". Recentemente o Jornal O Globo lançou uma “campanha” para o incentivo da leitura de jornais. Um dos lemas, se me lembro bem, era “Quem lê jornal é mais”. Ah, sim. Mais o quê? Disso, não obstante, é comum vermos frases generalizantes (apesar de achar que a generalização é um pressuposto para o pensamento) como "os que não gostam de ler são burros, estúpidos e ignorantes... Os que gostam de ler são legais, interessantes e inteligentes." Posso provar que na realidade não é bem assim. Nem sempre quem nasce em meio a livros e faz parte do mundo da leitura é “sinônimo de virtudes cívicas”. Vejam só os grandiosos exemplos que temos, Bush, o juiz Nicolau dos Santos Neto, empresários matreiros, deputados corruptos, engenheiros inescrupulosos, o desalgemado José Sarney, todos eles fazem parte do mundo da leitura, e mesmo assim, não merecem nossa admiração. Então, por si só, essa moralização é falsa.
 Agora, quero enfatizar algo muito importante. Uma pergunta que nos fica à volta quando, pela primeira vez, algo nos incita a ir em direção aos livros. Para que ler? Por que ler? Posso, com devido conhecimento de causa, arriscar uma resposta. Para atingir, alcançar, que seja ao menos uma fatia, a sabedoria. A sabedoria está impregnada em muitas circunstâncias da vida. Muitos teóricos têm discorrido sobre a sabedoria, ou onde encontrá-la. Um dos meus favoritos, o crítico literário norte-americano Harold Bloom, diz que no mundo de hoje a informação é facilmente encontrada, mas onde encontrar a sabedoria? Outros, como Bertrand Russell, ensaia em dizer que é possível encontrar a sabedoria, na hipótese em que seus aspectos podem ser ensinados por via da instrução formal, propriamente, pela escola, é bem provável que resulte da aprendizagem da história e da grande literatura (entende-se “grande literatura, talvez, o conhecimento e a compreensão das noções gerais da cultura, do lugar do pensamento e do homem na história, ou seja, do conhecimento e contato com os clássicos). A literatura fala da vida. E mais uma vez está implícito nesta idéia a compreensão de que a sabedoria é um conjunto de noções e saberes que nos é oferecido por meio de uma história de vida e toda a relação “bruta” que podemos travar com o mundo.


Quem lê está em permanente contraste com os mais diversos problemas que a humanidade se depara, ou, até mesmo, foge. Homicídios, suicídios, adultério, amor, bovarismos... Tudo isso encontramos nos livros. Os livros são perigosos, porque os melhores livros já escritos tratam de problemas que ninguém deseja enfrentar diretamente. Um escritor é alguém que está em constante "reação" com a vida. E quando digo reação, quero dizer no sentido de "reagir". (e peço desculpa, nos tempos em que vivemos, por usar a palavra "reação" em seu verdadeiro sentido). É como um sujeito que, pela primeira vez, põe o dedo num gatilho e, consequentemente, dispara um tiro. O impulso provocado pela arma pode ser brutal, é uma reação que talvez machuque o sujeito, caso ele não esteja acostumado a manusear armas de fogo. E assim é a vida, uma constante reação. Precisamos voltar com essa ideia que os livros são perigosos, talvez só assim faça com que as pessoas se interessem por eles, efetivamente. E isto não é um devaneio meu, filmes, a própria história, nos dão lições disso. Mas, por outro lado, não compartilho com ideais românticos a respeito da mudança social, ou aquilo que se chama de “transformação social”, que a literatura possa provocar. Como a escrita é uma invenção e artifício humano, intrinsecamente, por si só, é política. Quando escrevemos, pensamos, ou seja, escrever é o mesmo que pensar. Gonçalo Tavares, um grande escritor português, sintetiza essa questão, “se penso, não escrevo”. Se quero transformar a escrita, ou a leitura, em arma, em guarnição, não terei absolutamente nenhum resultado, muito pelo contrário, as vezes tenho um efeito totalmente distorcido em relação a minha primeira idéia. Penso que a crítica literária deve ser pragmática neste sentido.
Ou Talvez José Saramago tenha razão, talvez tenhamos que alvejar certas palavras, quando coligadas a leitura, como: "literatura, compromisso, transformação social..." Devemos colocá-las de molho, cada uma delas, reencaminha-las a um sentido pleno de integralidade, restaurá-la dos desgastes do uso, das vulgaridades da rotina. Pois é bem sabido que não nos consta que a leitura dos "Fioret", de Santo Angostinho, tenha salvo alguma alma das chamas da inquisição, ou tenha lavado as mãos da Igreja, que, por sinal, até hoje, estão sujas...
Outro fantástico atributo da leitura é sua plena intertextualidade. Quanta felicidade não sentimos quando, ao ler um livro, nos deparamos com a inextrincável cadeia de diálogos que encontramos por meio de uma só narrativa, ou quando inferimos e percebemos que os diálogos se entrelaçam, se abraçam. Um livro conversa com outro, mesmo que essa não seja a intenção diretamente. E eu acredito que isso se dá por conta do que chamo de "subjetividade do mundo", aquela que talvez não percebamos diretamente, uma subjetividade que se dá por meio de "conversações indizíveis", uma "sincronicidade”. Essa é a subjetividade do mundo. No entanto, acho que posso aqui abrir um espaço para dizer como a leitura pode nos convidar a solidão, ou a uma individualidade permanente. Não quero discorrer sobre a “formação do caráter” do leitor, somos o que somos, independente de como ou do que lemos. Somos seres errantes, e cada um vai buscar nos livros aquilo que é de melhor para si, aquilo que lhe ajuda a enxergar com mais nitidez sua própria vocação como ser humano.
 Toda vez que falo deste tema, a leitura, a formação do leitor, sinto-me como se estivesse em órbita, em meio ao espaço sideral, num vão, e em minha volta estivessem dezenas de satélites a rodar, sem um ponto fixo. Mas continuo lendo porque quero a sabedoria, e a minha única razão precípua para continuar lendo, é a sabedoria, encontrar a sabedoria. Mas um dos grandes problemas é saber onde é que se encontra a sabedoria. Como já disse, nos dias de hoje, é intensamente complicada essa questão. As informações correm no rabo de um cometa e nem por isso são tão dignas de garantia, de serem informações válidas. Talvez tenhamos a sorte de encontrar, em alguma trilha da vida, um professor, ou qualquer outra pessoa, que nos oriente e nos indique um caminho seguro. Mas, não se engane, na maioria das vezes, encontramo-nos sós! E aqui, digo da minha própria experiência como leitor, um leitor, para mim, todo leitor se dá por meio do acaso, e por isso, na maioria das vezes, é preciso dar chances ao acaso.
 Ademais, gostaria de finalizar de uma forma bem pessoal. Acredito que uma das grandes “revoluções” que a leitura pode provocar na vida de uma pessoa é a alteridade. Ser capaz de compreender o outro na sua mais nobre plenitude, e é, também, para isso que lemos, para viver inúmeras vidas num só corpo e sair de uma espécie de “lugar-comum”. Virgínia Woolf disse que o melhor conselho a se seguir quando se trata de leituras é não seguir conselho algum, é experimentar com a própria língua a liberdade que é inerente a essa prática. Mas, veja bem, experimentar a liberdade da leitura, não significa ser arrogante, tanto com o acaso quanto com as pessoas. Porque o tempo é curto, e não nos é permitido ler tudo o que há para ser lido. Então seria completamente inútil desperdiçar nossas forças lendo de modo "desavisado", "ou molhando a casa inteira com o intuito de aguar apenas um vaso de rosas".
 Não quero dizer que alcancei sabedoria, mas queria deixar algo bem pessoal nesta nota. Que, na verdade, não é minha, propriamente. É de todos os livros que já li, de todos os escritores que me foram essenciais e que amei e de todos os sábios que encontrei pela vida.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

A mosca do mundo


Hora do almoço. Eu degustava minha parcela diária de solidão. Não sabia se era a comida que estava com um sabor amargo ou se era minha língua que já não sentia os prazeres do mundo.
Uma paciente pantomima, ajustada ao triturar do alimento, fazia-me pensar em como tudo neste mundo é feito para ser destruído e parar no estômago de alguém.
De repente, ouço um zumbido, algo como um enxame de abelhas. Quando olhei bem para a pequena janela da cozinha, percebi que minha casa estava sendo invadida por moscas. Eram terríveis, grandes, pretas, cintilantes. Rodopiavam, se amontoavam como se fossem gente. Meu desespero não foi menor. Eu, sempre eu, que mantive a casa limpa, longe desses insetos inescrupulosos e libertinos. Mas elas não ouviam o som dos gritos e das batidas do meu coração. Acasalavam-se ali mesmo, em cima da pia. O que foi? Pensei. Foi Noé, Noé quem levou um casal de moscas na arca e as salvou do terrível dilúvio. As moscas, no passado, já me devoraram de minha pior morte. Elas eram grandes.
É a vizinha. Pensei. Vinham da pocilga. Mas não havia pocilga, a não ser aquela que estava sobre minha pele. Minha pele era fétida. Atraía moscas. Como? Num momento, elas começaram a pousar no meu prato. Os caroços de feijão se confundiam com seus enormes e afilados corpos. Suas asas pareciam de plástico, de celofane.
O inseticida estava ali, bem perto, na gaveta do armário. Mas algo impedia que eu levasse a mão até a porta... Não, alguma mosca me puxava para trás, não uma, mas uma legião. Corri para o quarto, e enquanto elas consumavam seu horroroso rito profano, eu me escondi debaixo da cama. E chorava. Escondi-me das moscas, escondi-me do mundo. Não suportava mais o zum zum zum do mundo. Eu era mosca, as pessoas eram moscas, o mundo era mosca. Todos corriam, enfim, em busca de suas porcarias. O mundo é uma bosta, é um grande esgoto e nós, todos nós, inclusive, com veemência, eu sou mosca. A passos calmos, andei um pouco até a cozinha, o ato já havia se consumado. Elas emporcalharam tudo, deixaram apenas seus restos, indiferentes. E de mim? O que restou? Eu. Só eu havia sobrevivido aquele holocausto de varejeiras. Só eu soube como e quando me esconder. A fúria do mundo era complexa demais para a simplicidade do meu desespero. Mas eu era mosca, eu ainda sou mosca. Elas vieram até mim por afinidade e não por terem farejado à distância algum sinal de sujeira. Mas eu percebi que até então eu não sabia que era mosca, e nem fazia noção. Porque se eu soubesse que eu era mosca antes do ataque das moscas, eu teria me matado, não teria agüentado o peso dessa verdade. E também ninguém, ninguém pode saber que é mosca antes de ser atacado por um bando de moscas. Porque a máquina do mundo é complexa demais para a simplicidade de uma mosca.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Despedida


O fato se deu há pouco, talvez uma ou duas semanas, algo me escapa a memória. Tudo pode ser revelado assim mesmo como ocorreu na realidade, ou na realidade de uma ficção, o que seria o mesmo.
Despedimos-nos porque de certa forma nos sentimos eternos. Brincamos de dizer adeus, mas depois nos reencontraremos. Na candente manhã de um domingo, lembro-me de tê-la visto pela última vez de perfil, dentro do vagão. Como se trata de um relato literário, as ênfases não serão poupadas.
- não é a primeira vez que entro no vagão de um trem. Disse-me.
- você foi minha e eu a perdi, se é que alguém pode ter alguém, e alguém pode ser perdido.
Foi então que observei em seu contorno facial uma peculiaridade que li entre os versos da antiga caderneta de poesia épica de minha mãe; Entre os rostos dos rostos encontram-se sempre traços de ouro e suavidade. Seu rosto era permeado de simples e reluzentes traços, uma pequena curva fazia-se presente nos cantos inferiores dos lábios. Nada pode ser esquecido, só mesmo os pormenores.
Nada mais posso me lembrar do que foi dito na estação. Só lembro que desci a plataforma para levá-la ao encontro do primeiro conjunto de vagões a pousar frente à cancela.  Repeti os passos do poeta. Existe apenas um único homem de versos nesta cidade, e tudo o que sei aprendi com ele. Sabia que todo o inesperado me era permitido naquela manhã, por isso Beijei-lhe a boca, comprimindo, suavemente com os meus, a parte inferior de seus lábios. Ela afastou-se, e não mais ensaiou uma aproximação. Compreendi. Para mim, um iconoclasta barroco e misantropo entrando na meia idade, já não se pode exigir muito de uma inocente despedida, aceitei sua condição, adivinhei em seus olhos uma intensidade estranha, e passei a temê-la. 

Sempre é uma palavra que não me é permitida. Lembro-me, por fim, que pronunciei meu pequeno nome em voz paternal. Suas mãos sobre as minhas, deixavam um aroma fresco e uma sensação de conforto. Subiu a breve escada do vagão, sentou-se em seu posto, e partiu.
Quando subi as escadas rumo a meu pequeno quarto na Rua do Vigário, senti que os espelhos da clarabóia refletiam uma imagem estranha. Adentrei na habitação, e senti novamente seu cheiro cítrico. Ao me sentar sobre a cama, com o objetivo de deitar e descansar, pois aquela manhã já havia me proporcionado uma série de demasiadas e repentinas suspensões, olhei fronte ao espelho, e sua presença incrustada revelava uma duplicação ou uma multiplicação espectral da realidade. No quarto escuro, percebi que a areia do tempo escoava entre cristais e fazia-me lembrar de versos que eu procurava esquecer. Senti aumentar o calor, e uma espada corroída pela ferrugem se encarregava de me arrancar os olhos. Subiu por minhas veias uma assustadora vertigem. Não havia espada. Como uma areia na ampulheta secular do tempo, pela última vez, possuí seu amor.  

terça-feira, 3 de julho de 2012

A Morte de Ivan Ilitch




Os que sempre visitam este espaço, provavelmente, já perceberam que o tema “morte” muito me intriga, e, certamente, a outros mais. Mas, não sou um aficionado por buscar, em todos os cantos, fatos e evidencias que possam trazer isso à tona, não. A morte sempre se apresenta em minha vida de uma forma ou de outra, e, no mais das vezes, quando menos espero. Manifesta sua indizível face em sonhos, em situações do cotidiano, problemas familiares, perturbações pessoais, enfim.
No momento, venho falar deste livro que há um bom tempo tenho em minha estante, mas, por eventualidades do dia-dia, nunca havia me interessado por travar uma leitura comprometida. Pois bem, o momento sempre chega. E eis que, Tolstoi, apresenta-se de forma arrasadora.
Muito poderá ser dito sobre o livro, no entanto é uma obra relativamente pequena, de poucas páginas, mas acredito que o essencial se dará a partir das considerações de cada leitor em particular, em seus momentos de leitura silenciosa, brigando com o poder inebriante e, ao mesmo tempo, lúcido de Tolstoi, retirados das profundezas de um tormento que parece não ter fim. Chego ao fim do livro cansado, como se eu tivesse morrido com Ivan Ilitch.
Durante a breve e agradabilíssima leitura, tomei Ivan Ilitch como uma espécie de inquisidor da morte. É como se, ao longo do livro, ao acompanharmos seu sofrimento, a decadência de sua saúde, devido a um mal desconhecido, ele mesmo, apontando o dedo à nossa face, dissesse: “É, você, que lê essas míseras páginas, prepare-se, seu dia chegará!” E, acompanhado a isso, sobe-nos uma onda de terror e medo. Medo de morrer, o medo mais antigo do mundo. A morte é algo tão comum como qualquer outro fato do cotidiano. É bem mesmo como nomeei um conto que escrevi há um tempo, a morte é um ‘incidente cotidiano’.  Do que valeu as inquietações de Ivan Ilitch? O desprezo, o ódio pela morte, a revolta frente a um fato consumado, a revelia ao pensar que sua vida poderia ter sido melhor.
Mas quem, ao sofrer de uma terrível doença, ou passar por um momento tenebroso na vida, não se perguntou: “Por quê? O que eu fiz? O que deu errado?”... Sentimos a morte como um salário, uma taxa a quitar com a natureza por nossos anos como viventes, por nossos atos infames, pelas coisas não ditas, pela atitude não salva. Um salário, um aluguel que, cedo ou tarde, o cobrador baterá à nossa porta em busca de recebimento, e pagaremos com aquilo que é de mais caro, a vida. E ninguém, com isenção dos suicidas, quer pagar por isso. Bom, para além da morte, o livro também retrata a vida efêmera e fútil de um funcionário público, inserido numa sociedade aristocrática, em busca de satisfação social e profissional. O casamento, em certo sentido, é visto como algo meramente consensual, uma espécie de contrato, como mesmo o é. Para uma boa aceitação, é preciso casar-se, como bem pensava Ivan Ilitch.
Lembro-me agora de uma citação de Oscar Wilde, que, seguramente, fará um ótimo contraponto a situação vivida pelo pobre Ivan, solitário em sua cama, agonizado por conta de um mal que levava aos poucos sua doce e vívida saúde: “As nossas tragédias são de uma profunda banalidade para os outros”. Parece-me uma bela síntese, e resume muito bem a relação entre o doente e sua família. O único pelo qual Ivan nutria certo grau de empatia, era seu empregado Gerassím, que o auxiliava na busca por uma posição ergonômica que aliviasse e o fizesse sentir com menos intensidade as marteladas da dor. Outra interlocução que também é possível se fazer com este livro, é um fragmento de um conto de Kafka, onde o médico é posto na cama do paciente para que o enfermo encontrasse certa dose de alívio, dizia Kafka: “Alegrai-vos, ó, pacientes, o médico foi posto em vossa cama.” A situação dos médicos e especialistas parece-nos bem similar no caso de Ivan, pois engalfinhavam-se em busca de uma solução ou de uma possível explicação para a desconhecida doença, e, claro, tudo sem um mínimo de sucesso. Afinal, todos os pacientes são iguais, reclamam das mesmas coisas e morrem do mesmo jeito, solitários.
Finalizo aqui esta pequena consideração. É possível dizer que após essa leitura o leitor terá uma experiência bem próxima do sofrimento que, muitas vezes, precede à morte. E, por voltas, terá em sua cabeça, mais pungente que nunca, a terrível certeza da morte.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

E com a palavra...




Parafraseando Clarice Lispector, e com a intenção de plagiá-la (porque, acredito, é melhor plagiar os outros do que a si próprio), a palavra é tudo o quanto possuímos no mundo, um domínio. A palavra é a "mercadoria" de maior versatilidade que existe: é comprada, vendida, doada, incentivada, incendiada, apagada, congelada, maltratada, tratada à pão de ló... Enfim, palavra é palavra. Outro grande aspecto da palavra é sua indefinição, não há nenhuma palavra que defina a palavra palavra. Ela é única, sem igual, sem exemplificação, sem definição. Qualquer meio que se use para defini-la a tornaria limitada e reduzida a um punhado de conceitos rastejantes em busca de um lugar nos compêndios da vida. Outro aspecto, a palavra nunca nos abandona, ela é a maior herança deixada por nossos tetravôs, bisavôs, avôs, pais... E de toda nossa árvore genealógica. Muitas das vezes, só a palavra salva, ou melhor, SÓ a palavra salva. Ela é a única fonte da qual provêm aquela mentira ou aquela verdade que, na hora do enforcamento final, nos salva ou nos emancipa, ou, também, para não dizer que não falei de flores, nos mata, nos vela e nos enterra. Mas, a palavra é algo que, aos poucos, se eleva (ou a elevam-na) a um patamar de "privatização". Precisamos libertar a palavra, a palavra é de todos, a palavra é do mundo. Não há meios de se prender a palavra. Ou melhor, há sim, na ignorância que é o próprio aprisionamento que a encerra. Enfim, a palavra alimenta, e mesmo que o estômago reivindique nutrientes, e nossa boca esteja vazia de matéria concreta, temos a palavra, no portal da língua, sempre pronta para pular do trampolim da vida. Façamos o seguinte, palavra é algo para ser trabalhado, é nos dada na condição de que a usemos e abusemos de sua existência. Precisamos, assim como nossos patriarcas gregos, resgatar aquilo que dá voz a palavra, ou seja, a própria palavra; não há necessidade de mais nada, possuindo a palavra já basta. Usemos de todas as maneiras, de manhã, à noite e também nas trincheiras... Porque há um uso múltiplo e recíproco, nós a usamos e ela nos usa... Além do mais, e no fim das contas, a palavra é sempre SUA!

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Do Livro dos Sonhos


Os sonhos são as linhas que costuram o mundo. O que é o sonho senão uma extensão da memória e das capacidades criativas do homem? O sonho é mais que uma mera paisagem ou reflexo de imagens nonsenses, o sonho é a legítima dramaturgia da vida. 


(Jorge Luis Borges, Buenos Aires, 24 de agosto de 1899 — Genebra, 14 de junho de 1986)

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Meu Pobre Pessimismo


Eis o espetáculo do mundo. E feliz é aquele que não se contenta. Vivemos em tempos arrepiantes. E tens o ano de minha morte.
É certo que ao longo do tempo vivi sob um véu de candentes expectativas quanto a tudo o que foi produzido por mim, principalmente letras. Produzi e reproduzi estórias, contribuí pobremente com a história, urdi fábulas, sonhos, notas. Mas não sei se tudo isto poderá salvar minha incessante e pungente condição. Um escritor, como outros de meu tempo, não pode se preocupar se deve adequar sua atividade de criação a todas essas novas e bestiais teorias que se criam e nascem nas torres de marfim. Dane-se Flaubert, que no intento de sua mágica produção artística, fez das tripas e coração para encontrar o perfeito dicionário. Naturalmente os críticos não darão braço a torcer. Querem impor uma escola, um grilhão. Logo eu que, escrupulosamente, fugi e não paguei pelo que não queria.
Para nossos antepassados que acreditavam no progresso, moral, inclusive; e para quem achava que abrir uma escola equivalia fechar uma prisão, tragam-nos as famosas pesquisas de opinião, que se escancarem as gavetas das estatísticas! E vejam que nem mesmo o progresso, por um lado parasitário, proporcionou comodidade de vida a todos.
Fizeram da poesia, autêntica madre da criação e enlevo das palavras, reduziram-na a um mero jogo de caracteres programados num computador. Uma máquina que, provavelmente, está mais constrangida que o próprio ser humano. Ora, jamais, eu, um autêntico literaturiado, abandonarei minhas raízes primitivas.
Encanto-me pela forma, pelo poder de achar a força da criação artística em meio a notória indiferença do mundo, que nunca me pediu, sequer, um conto. Os sonhos, que dantes, sonhados por um coletivo, estão relegados a um cárcere ao fundo da mente, sem possibilidades de libertação. Ignoro qualquer tipo de aproximação com a verdade, mas não nego que já ensaiei muitos encontros.
Que não assimilemos os nossos inimigos, que não os transformemos numa espécie de obsessão, num Zahir. Que possamos aprender, quando os têm, de suas astúcias, mas corre-se o risco, sempre, de querer, primeiro, parecer, depois, ser igual a eles.
Quando o amor se torna algo secundário na vida de um homem, este homem também tende a ser secundário. Não é meu objetivo cantar o amor, não é para isto que venho. Os deuses nos deram a morte, o sofrimento para que tenhamos algo para cantar. Todo o canto primário, toda a pequena poesia nasce de uma tragédia, de uma desgraça, toda poesia é metade fatalidade.
O tempo é senhor de conclusões. Tiramos inúmeros significados, por mais imprecisos que nos pareçam, por via de suas próprias amiúdes. O amor, relegado a mera estátua latina do Cupido, já não promove grandes revoluções. Bata-nos perfumar a nuca e tudo está ganho. Basta-nos por um pouco de vaidade e interesses no bolso e ganhamos o mundo.
Nosso pobre individualismo já nos aterra. Cavam nossa fossa todos os dias. Caiam-se os céus, agarro-me ao travesseiro por não querer levantar pela manhã. Descargas de niilismo caem-me sobre a face. Mundo tracejado de insatisfações. Ninguém mais se sente confortável em seu posto de trabalho, se é que algum dia se sentiu.
Morro e não busco motivos para isto. E se alguém sobrevive a este mundo, é um milagre, e se cria de forma mutilada. Esse é seu canto.